quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ficha de leitura: Complexity of Coupled Human and Natural Systems, de Jianguo et allii.

Universidade de Brasília – UnB
Centro de Desenvolvimento Sustentável – CDS
Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável
Ciência e Gestão da Sustentabilidade
Professores: Elimar Nascimento, Maurício Amazonas, Frederick Mértens e Thomas Ludewigs
Discente: Juliana Capra Maia
Ficha de Leitura:
LIU, Jianguo (et. Allii). Complexity of Coupled Human and Natural Systems. SCIENCE. Vol. 317, 14 de setembro de 2007, pp. 1513 a 1516.
_________________________________________________________________________________

** Sistemas casados, híbridos ou acoplados >>> Sistemas em que homens e meio ambiente interagem. Sua complexidade ainda não foi adequadamente compreendida, dada a tradição de separar ecologia e ciências sociais.

** Programas interdisciplinares têm trazido luz à questão nos últimos anos.

** O texto traz 6 estudos de caso, em locais com diferentes configurações socioeconômicas, políticas, demográficas e culturais. Os estudos englobam, ainda, variedade de serviços ecossistêmicos e de problemas ambientais:
  • Terras altas do Quênia; 
  • Reserva Natural para pandas gigantes Wolong, na China; 
  • Central Puget Sound de Washington; 
  • Northern Highland Lake District de Wisconsin; 
  • Altamira, Pará; 
  • Kristianstads Vattenrike, Suécia.

** Características comuns aos trabalhos >>>
  • Explicitamente demonstram a complexidade das interações entre homens e meio natural. Em outros termos, esses estudos demonstram as conexões entre homens e meio ambiente, não se contentando com uma abordagem meramente sociológica ou meramente ecológica.
  • Os grupos de estudo são formados por profissionais de diversas áreas diferentes: ecologia e ciências sociais.
  • Os estudos em questão integram ferramentas e técnicas de diversas áreas do conhecimento (modelagem, sensoriamento remoto, análises, etc).
  • São estudos localizados no tempo e, simultaneamente, longitudinais.


EFEITOS RECÍPROCOS E RETROALIMENTAÇÃO
  • Wolong. Os habitantes utilizam o bambu como lenha para seus fogões e aquecedores. Os pandas utilizam o bambu como alimento. Como resultado, a utilização de lenha em fogões e aquecedores prejudicou o habitat dos pandas.
  • Quênia. Os moradores locais converteram áreas de floresta em lavoura para o cultivo de grãos. A exploração inadequada do solo por quase 100 anos prejudicou a sua fertilidade. Como resultado, tem se verificado uma tendência à deterioração dos remanescentes florestais no Quênia.
  • Altamira. Mais de 255 mil hectares de floresta foram derrubados para dar lugar à pecuária e ao plantio de grãos. À media em que o solo empobrece, há a necessidade de aplicação de fertilizantes. Desse modo, ocorre a substituição das culturas por plantas menos exigentes em termos de nutrientes ou, alternativamente, a derrubada de novas áreas de floresta.
  • Vattenriket. Beneficia-se de serviços ecossistêmicos que são resultado do manejo humano de longo prazo sobre a agricultura.
  • Wisconsin. As condições ecossistêmicas afetam o turismo, que é uma das principais atividades econômicas da região. Entretanto, o desenvolvimento econômico e a exploração dos ecossistemas frequentemente degrada as qualidades que atraem os turistas.

** A dinâmica dos sistemas híbridos (humano-ecológicos) é influenciada por diversos fatores, inclusive pelas políticas públicas e pelo contexto local, regional ou global em que os processos ocorrem. 
  • Os moradores de Wolong, por exemplo, foram atraídos para as cidades, o que diminuiu a demanda por lenha para fogão e aquecedores. Por outro lado, centenas ou milhares de turistas foram atraídos para a região em decorrência da criação da reserva natural, situação que aumentou a demanda por energia elétrica e por lenha.

NÃO LINEARIDADE E ESTÁGIO LIMINAR

** Incontáveis relações em sistemas híbridos (humano-ambientais) são não lineares.

** Estágios liminares são formas comuns de não-linearidade.
  • Os sistemas mudam de comportamento em função do tempo (Altamira) ou do espaço (Wolong).

SURPRESAS

** Quando a complexidade não é compreendida, os outputs de sistemas híbridos (humano-ambientais) pode surpreendê-las
  • Em Winsconsin, foram introduzidos Osmerus mordax como presa do Stizostedion vitreum. Não obstante, os Osmerus mordax passaram a predar os filhotes dos Stizostedion vitreum.

** Políticas conservacionistas podem trazer efeitos perversos.
  • Em Wolong, habitats dos pandas foram degradados após a criação de unidade de conservação. Para captar incentivos governamentais contra o desmatamento ilegal, as famílias se dividiram em várias residências menores, situação que aumentou a demanda por lenha para aquecimento e cozinha, e por madeira, para construção civil.

** Alguns ecossistemas demandam manejo humano para permanecerem em equilíbrio.
  • Vattenriket. Áreas alagadas foram deixadas intocadas para fins de preservação. Mas essas áreas acabaram crescendo muito depois que a colheita parou. Em outras palavras, as colheitas eram indispensáveis para a manutenção do ecossistema situado nessas áreas alagadas.

EFEITOS DE LEGADO E DEFASAGENS

** Efeitos legados são impactos nos sistemas complexos em condições posteriores. Nos seis experimentos, os efeitos legados variam de décadas a séculos.
  • Legado mais curto >>> Altamira (desde 1970)
  • Legado mais longo >>> Vattenriket (centenas de anos)

** Os impactos ecológicos e socioeconômicos dos sistemas híbridos (humano-ecológicos) podem não ser imediatamente observáveis ou previsíveis por causa do lapso temporal retardado entre as interações sistêmicas e suas consequências.
  • No Quênia, há um lapso temporal entre o investimento no solo e o aumento dos rendimentos.
  • Em Vattenriket, deixou-se de usar a água do Rio Helga para abastecimento, na década de 1940, em decorrência de resíduos industriais e domésticos lançados no rio várias décadas antes.
  • Em Puget Sound, medidas ecológicas adotadas por Washington na década de 1990 só foram observáveis após 8 anos.

RESILIÊNCIA

** Sistemas híbridos possuem diferentes graus de resiliência (capacidade de manter a mesma estrutura e funções apesar das perturbações).
  • Wolong: áreas maiores com espécies de rápido crescimento são mais resilientes à extração de madeira que as áreas pequenas com espécies de crescimento lento.
  • Quênia: dinheiro remetido por parentes empregados em áreas urbanas diminui o impacto das escassas colheitas devido à pobreza dos solos.

** A intervenção humana altera a resiliência dos ecossistemas.
  • Vattenriket: a resiliência das áreas alagadas demanda o pastoreio e inventivos para manter o pastoreio economicamente viável.
  • Puget Sound: a manutenção de maciços florestais deve-se, historicamente, a atuação de ambientalistas.
  • Wisconsin: a manutenção da resiliência de sistemas híbridos deve-se às boas condições dos ecossistemas.

HETEROGENEIDADE

** Sistemas híbridos variam no espaço, tempo e unidades organizativas. Ademais, eles mudam o tempo todo.
  • A população aumentou em todos os estudos, mas seus impactos foram diferentes. No Quênia, o aumento da população (dobro) resultou na diminuição do tamanho das fazendas. Isso fez com que os agricultores demandassem mais do solo o que, por sua vez, aumentou o desgaste da terra.

CONCLUSÃO E PERSPECTIVAS

** Comparações entre esse tipo de estudos trazem novas ideias para compreender características de sistemas complexos, características essas que não podem ser observadas em estudos individualizados, unidisciplinares.

** Para aumentar a capacidade generalizante desses estudos de caso, as pesquisas futuras acerca de sistemas híbridos deve incluir não apenas localidades específicas separadas, mas também projetos coordenados, comparativos e de longo prazo.

** Estudos futuros devem se propor a analisar as relações entre sistemas, não apenas intra sistemas. Para tanto, é crítica a aproximação entre as disciplinas, bem como a aproximação entre cientistas de todo o mundo.  

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Ficha de leitura. Cultura esgotadora: a agricultura e a destruição ambiental nas últimas décadas do Brasil Império. José Augusto de Pádua.

Universidade de Brasília – UnB
Centro de Desenvolvimento Sustentável – CDS
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável
Doutorado
Disciplina: Oficina de textos científicos
Professores: José Augusto Drummond e Marcel Bursztyn
Aluna: Juliana Capra Maia
Ficha de Leitura
Texto: PÁDUA, José Augusto. “Cultura esgotadora”: agricultura e destruição ambiental nas últimas décadas do Brasill Império. Estudos Sociedade e Agricultura, n.º 11, Outubro de 1998, pp. 134/163.
________________________________________________


** A crítica ambiental no Brasil remonta pelo menos ao final do século XIX e início do século XX.
-- José Bonifácio 
-- Val, Capanema, Pacova e Azevedo 
-- José Saldanha da Gama, Nicolau Moreira e Dionísio Martins (escreveram para a Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura – IIFA).


** Em meados de 1870, os solos da região cafeeira do Brasil davam evidentes sinais de exaustão. Diante da preocupação mais ou menos generalizada, o Ministério de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, então dirigido por João Lins Cansansão de Sinimbu, convocou um Congresso Agrícola.


** No Congresso, destacaram-se as discussões acerca do financiamento da produção e da escassez de mão de obra (“Braços e Capitais”). Apenas perifericamente foi tratada a questão da inadequação das tecnologias rudimentares até então utilizadas pelos agricultores brasileiros.
-- Destaque para a fala de Manoel Ribeiro do Val, lavrador do Paraíba do Sul, que criticou duramente o regime de exploração do solo então em vigor no Brasil. Para ele, a crise da agricultura brasileira era eminentemente ecológica.

“erro grave e imenso supor-se que a deficiência da nossa produção é proveniente unicamente da falta de braços e capitais. Só quem não pensa e estuda, só quem não acompanha e examina atentamente e de perto o nosso sistema de explorar o terreno sem arte e ciência, e a marcha que a lavoura tem seguido, e as revoluções meteorológicas e mudanças climatéricas por que tem passado o Brasil neste último quarto de século, é que pode avançar em absoluto uma semelhante proposição”. Congresso Agrícola, 1988 [1878]: 163 apud. Pádua, 1998, p. 136.

-- Os participantes pareciam concordar que a lavoura de café vinha exaurindo as terras, promovendo mudanças nos regimes climáticos, favorecendo a praga da lagarta nos cafezais o que, por sua vez, diminuiria os frutos e as colheitas (Comendador Luiz Resende, de Valença). Entretanto, pareciam acreditar no potencial de continuidade do sistema extensivo de produção, desde que dispusesse de crédito e mão-de-obra abundantes e baratos.

“O que prevaleceu em vários outros momentos, de fato, foi uma atitude desatenta e indiferente em relação aos problemas ambientais, um elogio heróico do avanço da fronteira do café sem qualquer consideração quanto às conseqüências negativas dos métodos que estavam sendo utilizados, especialmente no que tange à destruição florestal”. Pp. 139.


** As ideias ecológicas de Val se inserem em uma tradição intelectual brasileira que remonta ao século XVIII.
-- Naturalista ítalo-português Domingos Vandelli, cujas lições incluíam uma forte crítica da destruição ambiental em Portugal e respectivas colônias e discípulos. Universidade de Coimbra. Condenação ao tratamento predatório dado ao meio natural. 
-- Destruição do meio natural (rico conjunto de formações e recursos que seriam fundamentais para o desenvolvimento do futuro país) = herança equivocada da mentalidade colonial. 
-- Críticas às práticas agrícolas. Os primeiros questionamentos surgiram nas décadas de 1840 e 1850, quando os brasileiros ainda viviam os primeiros momentos eufóricos da expansão do café no interior do Rio de Janeiro. Entretanto, naquela época ainda existiam matas suficientes para permitir a continuidade do nomadismo agrícola.  


** Guilherme Capanema, 1858.
-- Percebeu que a introdução de modernizações parciais, sem a ruptura do padrão de exploração então praticado, poderia aumentar a degradação. Exemplo: utilização das ferrovias como instrumentos de devastação.  

“observando a marcha da nossa lavoura, desde o seu começo, conhecemos depressa que na maior parte de seus ramos ela ficou completamente estacionária. Os primeiros colonizadores encontraram terreno inteiramente virgem, produzindo em qualquer lugar com fartura tudo quanto nele plantavam, e por isso viram logo quanto era desnecessário adubá-lo etc., como faziam na terra pátria. Acresce a isso o diminuto custo dos braços escravos, que formavam um capital depressa amortizado... Debaixo destas circunstâncias é muito natural que ninguém se importasse com os melhoramentos da lavoura, e ficasse firmada uma rotina que depressa fazia esquecer  tradições a quem vinha se estabelecer nesta abençoada terra do Brasil” (Capanema, 1858:2). Apud. Pádua 1998, p.142.

-- Nomadismo agrícola: a utilização da coivara não permitia que o terreno durasse mais do que três ou quatro anos, prazo após o qual o sítio era abandonado.  

O modelo negativo que vinha sendo adotado no país não era inevitável. Na Europa, ainda segundo Capanema, todos os anos se podia cultivar o mesmo terreno, introduzindo-se máquinas e produtos químicos que podiam centuplicar o trabalho humano e arrancar” os meios de sua subsistência a uma natureza que, cansada, parece obstinadamente querer negá-los. Pádua, 1998, p. 143.


** Caetano da Rocha Pacova, 1859.
-- Apontamentos sobre a Necessidade de uma Escola de Agricultura. 
-- A agricultura brasileira, com exceção do café, estava definhando devido à combinação dos seguintes fatores, interdependentes entre si: a) Falta de instrução profissional e tecnologias modernas; b) Falta de crédito; c) Dificuldades de transporte; d) Escassez de braços; e) Destruição ambiental.

A ignorância dos lavradores, por exemplo, impedia a introdução de máquinas modernas (muitas estavam paradas por não ter quem as soubesse manejar ou reparar). O crédito agrícola era escasso porque as propriedades não ofereciam a necessária garantia de valor, já que os capitais estavam “precariamente comprometidos” em escravos e os recursos naturais das fazendas cada vez mais destruídos (Pacova, 1859:5). O tão falado problema da falta de capitais possuía uma clara dimensão ecológica, não podendo ser entendido apenas no âmbito financeiro. A lavoura brasileira era “nômade pelo seus [sic.] sistema de trabalho, como em geral o são os nossos estabelecimentos rurais; ao contrário do que acontece nos países de cultura permanente, eles perdem sua importância com o tempo, porque o solo, perdendo todos os anos parte dos seus princípios nutrientes, necessários aos vegetais, torna-se avaro, improdutivo e portanto sem valor”. O crédito para estas propriedades apenas se consolidaria a partir de uma reforma tecnológica que fizesse com que “o solo, em vez de ser exaurido, receba cada ano uma soma de trabalho amelhorador e de matérias fertilizantes, de modo a torná-lo mais rico e produtivo”. (Pacova, 1859:11). A questão da falta de estradas, por outro lado, que era uma outra fonte constante de reclamações dos produtores, não podia ser vista sem levar em conta o modelo agrícola, pois ligava-se ao modo nômade da agricultura, ao sistema de produção que estava “sempre em procura de terras virgens”, aumentando assim “a distância dos mercados” e agravando “cada vez mais sua situação já tão desvantajosa” (Pacova, 1859:13). Apud. Pádua, 1988, p. 146.

-- Crise da agricultura = Risco político. 
-- Sugestão do autor: transformação completa do modelo agrícola. Mudanças nas relações de trabalho (substituição do trabalho escravo pelo trabalho dos colonos), nas tecnologias empregadas (diversificação das culturas, plantio do café à sombra da floresta), nas práticas educativas (disseminação das escolas técnicas), nas relações com a natureza, na infraestrutura, no financiamento das atividades produtivas.


** Apesar dos alertas, entretanto,

A rotina predatória continuou seu curso em levar em conta as relativamente poucas advertências que eram feitas quanto à sua insustentabilidade. Esta realidade permaneceu inclusive no período posterior à década de 60, quando o problema da degradação ambiental na pátria do café já despertava um número maior de consciências. Em 1864, o próprio ministro da agricultura, Domiciano Ribeiro, em seu relatório anual à Assembléia Legislativa, criticava o fato de que o “lavrador entre nós é um nômade, que hoje cria e destrói aqui, para amanhã criar e destruir acolá”. Pádua, 1998, Pp. 148.


** Luiz Corrêa de Azevedo, 1878. 
-- Rotina agrícola = Continuidade irrefletida e automática das práticas agrícolas predatórias. “Fanatismo da velha lavoura”; “pertinácia no erro”; colher “sem nunca indenizar o terreno dos frutos que prelevava: tirar e nunca repor”. P. 148.
-- Compreensão de que os danos ambientais provocados em uma propriedade ultrapassavam as suas fronteiras. 
-- Sugestão: mudança nas relações de trabalho (erradicação da escravidão); mudança das técnicas empregadas no cultivo do café (fim da derrubada e queimada) e mudança das mentalidades.  

Era necessário que os fazendeiros entendessem não ser a agricultura apenas uma “coisa para fazer dinheiro”, mas sim uma forma de “dar ocupação e felicidade aos vindouros, que por força hão de ser filiados à escola do progresso e da cultura”. Era imperativo criticar aqueles que, apesar de “saírem ricos”, deixavam “a miséria estampada no solo ao qual com violência extorquiram safras, descuidando-se do porvir”. Deveriam ser condenados todos os que “só cuidam de transformar terras em capital, ainda mesmo sugando-lhe a última seiva de sua vida vegetal, sem se importar de formar o patrimônio futuro dos filhos e dos vindouros, guarnecido de todos os meios que garantam a perpetuidade da uberdade do solo” (Azevedo [1898]:195 e 224). Apud. Pádua, 1998, p. 150.


** Revista Agrícola do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA).
-- Rio de Janeiro, 1869 a 1890. 
-- IIFA: criado pessoalmente pelo Imperador em 1860. Entidade semiprivada. Espaços associativos que reuniam intelectuais, políticos, fazendeiros e outros membros da elite imperial. Recebia fundos do Imperador e de particulares. Missão: aproximar a ciência agronômica dos agricultores. Dirigido por Luiz Pedreira do Couto Ferraz, o Visconde do Bom Retiro. 
-- A revista foi acusada de ser o “meio de comunicação da classe senhorial durante o Império”. Pádua entende que o seu papel não era tão raso: 
a) Editores da revista do IIFA. Miguel Antônio da Silva e Nicolau Moreira. Intelectuais profundamente críticos das práticas adotadas pelos proprietários rurais, condenavam a destruição ambiental, a monocultura, a concentração fundiária e o escravismo. 
b) Os autores e participantes, em geral, eram abolicionistas moderados. 
c) As ideias difundidas pela Revista Agrícola chocavam-se frontalmente com a realidade em vigor.

Muitas das idéias difundidas pela Revista Agrícola, apesar de apresentadas com a tintura legitimadora da modernidade, chocavam-se tão frontalmente com a realidade em vigor que dificilmente poderiam ser reconhecidas pelos setores dominantes da economia. É significativo constatar, neste sentido , que o “Congresso Agrícola” de 1878 a presença do IIFA praticamente não se fez notar. A principal Revista Agrícola do país, ao que parece, não era considerada uma voz desejável, ou pelo menos essencial, no debate estabelecido pelos congressistas. Pádua, 1998, p. 152.


** José Saldanha da Gama. A importância dos pássaros para a agricultura. Proposta: desenvolver programas voltados para “conservar a todo o transe as espécies úteis e destruir as que vivem somente para embaraçar-nos” (Gama, 1874: 101). Apud. Pádua, 1998, p. 152.


** Nicolau Moreira. Estudo do esgotamento dos solos. Proposta: “Sistema permanente de restituição à terra dos elementos químicos dos quais ela era despojada em cada colheita. Para isso era necessário organizar, ademais da pesquisa agroquímica aplicada, um sistema abrangente e sistemático de reciclagem de materiais, que teria como eixo os esgotos urbanos”. Pádua, 1998, p. 153.
-- Menciona o “reinado de 375 anos de cultura esgotadora”.


** Dionísio Martins. Agrônomo baiano que escrevia na Revista Agrícola do IIFA. Mencionava “os males produzidos nas áreas cultivadas pelo cancro da imprevidência” (Martins, 1871: 10), e diagnosticava um futuro de fome, caso os métodos agrícolas não fossem radicalmente modificados. Pádua, 1998, pp. 155.


** Proposta básica dos intelectuais da Revista Agrícola:
-- O produtor tinha que agir de forma racional, cuidando do meio natural, de modo a garantir a sua exploração bem sucedida, para as presentes e futuras gerações. 
-- Tratava-se de uma escolha entre os velho sistema classificado como “extensivo”, “rotineiro”, da “derrubada”, do “ferro e fogo”, e o novo sistema “intensivo”, calcado na terra “adubada, arada e plantada pelo sistema racional”. Pp. 157.   

Entre os elementos comuns que a caracterizam encontra-se a forte presença de uma postura antropocêntrica, cientificista e progressista. Em nenhum dos autores brasileiros que criticaram a destruição ambiental naquele período, até onde eu tenha podido investigar, apareceu uma defesa da conservação do meio natural e da vida selvagem a partir do seu direito autônomo à existência e do seu valor intrínseco, seja biológico, espiritual ou estético. A idéia de conservação estava sempre calcada no valor instrumental da natureza para a sociedade e o país. A questão não estava em isolar, o meio natural da ação humana, mas sim em promover o seu uso inteligente e cuidadoso, buscando conciliar o aumento da produção econômica com a continuidade dos recursos naturais. Pp. 158.


Geração dos séculos XVIII e XIX: caracterizada pela fé na ciência e no progresso. Antropocêntricos, valorizavam a natureza por seu valor instrumental ou utilitário para a sociedade e para o país. Não atribuíam à natureza valor intrínseco, seja biológico, estético ou espiritual. 


** Os intelectuais de então viam a modernização como panaceia contra a degradação ambiental. Elogios à infraestrutura e às tecnologias vigentes na Europa (arado, charrua, grade, estrumação, poda, variação de cultivos, adubos químicos).


** A degradação era vista como o preço do atraso, não como o preço do progresso (olhar que hoje nos parece ingênuo, dada a degradação provocada pelas tecnologias agrícolas avançadas).


Degradação ambiental = Preço do Atraso


Em linhas gerais, desta forma, a aposta histórica dos autores que estiveram sendo examinados [...], passava pela superação do trabalho servil, da derrubada, da queimada, da lavoura extensiva e da grande propriedade em favor de uma ordem rural calcada no trabalho livre, na lavoura intensiva e na pequena propriedade. Uma aposta histórica que, guardadas as grandes diferenças de contexto, não perdeu totalmente a sua atualidade, continuando a ser, ainda nos dias de hoje, um desafio necessário para a democratização da sociedade brasileira. Pádua, 1998, pp. 160 e 161.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ficha de leitura: Sobrepesca e o recente colapso dos ecossistemas costeiros. Jeremy Jackson et. allii.

Universidade de Brasília – UnB
Centro de Desenvolvimento Sustentável – CDS
Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável
Ciência e Gestão da Sustentabilidade
Professores: Elimar Nascimento, Maurício Amazonas, Frederick Mértens e Thomas Ludwigs.
Discente: Juliana Capra Maia
Ficha de Leitura: JACKSON, Jeremy B.C et. Allii. “Historical Overfishing and the Recent Collapse of Coastal Ecosystems”. Science, vol. 293, Julho de 2001.


Introdução

** Colapso de ecossistemas marinhos << >> Sobrepesca.
  • A sobrepesca precede todas as outras perturbações humanas nos ecossistemas marinhos: poluição, degradação da qualidade da água, mudanças climáticas antropogênicas.
  • O número de espécies costumava ser muito maior que o atualmente observado, circunstância pouco explorada nos estudos disponíveis.  


 ** Populações sobrepescadas não interagem mais, de forma significativa, com outras espécies da comunidade.


Importância dos dados históricos

** A maioria dos estudos acerca de ecossistemas marinhos é realizada por meio de pesquisas in loco. Tais pesquisas datam da década de 1950 até o presente e normalmente desconsideram a perspectiva histórica.

** O estudo apresentado no artigo considera dados biológicos, biogeoquímicos, físicos, biogeográficos e históricos.

** Hipótese: seres humanos vêm provocando a degradação dos ecossistemas marinhos desde que aprenderam a pescar.

** Método: utilização de dados coletados em várias disciplinas.
  • Utilização da análise de sedimentos marinhos dos últimos 125 mil anos.
  • Registros arqueológicos dos últimos 10 mil anos dos assentamentos humanos ao longo da costa.
  • Registros históricos contidos em documentos, jornais e cartas desde o século 15 até os dias atuais.
  • Registros de ecologia existentes na literatura científica desde os últimos cem anos até o presente.



Períodos de tempo, Geografia e análises

** Períodos de relevante impacto humano sobre ecossistemas marinhos:
  • Aborígene: exploração de subsistência sobre os ecossistemas costeiros por culturas humanas locais, mediante artefatos relativamente simples.
  • Colonial: exploração sistemática dos recursos costeiros por potências mercantis estrangeiras, que incorporavam recursos naturais distantes a mercados em desenvolvimento.
  • Global: exploração intensa e ubíqua dos recursos pesqueiros costeiros e oceânicos, com a finalidade de fornecer produtos para um mercado internacional. Causa, frequentemente, a exaustão e a substituição dos nichos explorados.    


** Na Ásia, Europa e África esses períodos se confundem no tempo e no espaço. Nas Américas, na Nova Zelândia e na Austrália, entretanto, são tempos bem marcados.


Florestas de algas

** Florestas de algas constituem habitats oceânicos de diversas espécies de peixes e de invertebrados.

** No Hemisfério Norte, as Florestas de Algas foram sensivelmente reduzidas devido à pesca dos mamíferos que predam herbívoros.
  • Peixe-boi marinho (Steller’s sea cow): espécie de grande distribuição no Pacífico Norte e praticamente extinta durante o período aborígene. Os últimos foram mortos por comerciantes de peles durante o período colonial.
  • Lontra-marinha: espécie que preda ouriços do mar. Amplamente pescada pelos aborígenes. Protegida a partir do século XX. Entrou para a dieta das orcas (dado o declínio da população de focas e de leões marinhos), o que tem diminuído seu número novamente. 
  • Ouriços do mar: predam as florestas de algas. 

Northern Pacific kelp forests presumably flourished before human settlement because predation by sea otters on sea urchins prevented the urchins from overgrazing kelp. Aboriginal Aleuts greatly diminished sea otters beginning around 2500 yr B.P., with a concomitant increase in the size of sea urchins. Fur traders subsequently hunted otters to the brink of extinction in the 1800s with the attendant collapse of kelp forests grazed away by sea urchins released from sea otter predation. P. 631.


** Florestas de Algas do Golfo do Maine. A localidade nunca teve lontras-marinhas. Entretanto, os ouriços eram predados pelo Bacalhau do Atlântico e por outros grandes peixes.
  • Apesar da pesca aborígene (com linha e anzol), as populações de ouriços e as florestas de algas permaneceram estáveis até 1920, quando a introdução de novas técnicas pesqueiras desequilibrou completamente os ecossistemas oceânicos.
  • Lagostas, caranguejos e ouriços do mar cresceram em abundância, devorando as florestas de algas.




Arrecifes de corais

** Mais complexo dentre os ecossistemas marinhos, tanto do ponto de vista estrutural quanto do ponto de vista taxonômico. Fornecem habitats para diversas espécies de peixes e de invertebrados.

** A pesca nos arrecifes de corais começou há 40 mil anos. Não obstante, apenas nos últimos séculos as perturbações humanas provocaram colapsos.

** Locais em que o colapso dos corais é mais visível: Caribe e Arrecifes Australianos.
  • Caribe: mortandade dos corais a partir de 1980, devido ao supercrescimento de algas. Causa: mortandade do ouriço do mar, seu último predador, devido a doenças.
  • Austrália: mortandade dos corais a partir de 1960, devido à superpopulação de estrelas-do-mar. Fenômeno recente, sem registros nos períodos aborígene e colonial.




Campos marinhos subtropicais e tropicais

** Campos marinhos (sea grass) cobrem grandes extensões de baías, lagoas e plataformas continentais. Fornecem habitats para diversas espécies de peixes, tubarões, arraias, tartarugas marinhas.
  • Assim como os arrecifes, os campos marinhos mostraram-se bastante resilientes até recentemente, quando sua mortandade se espalhou por largas extensões: Baía da Flórida, Golfo do México e Baía de Moreton, Austrália, por exemplo.
  • Causas do colapso: turbidez, sedimentação e doenças. Mas essas causas foram aprofundadas pela extirpação de grandes vertebrados herbívoros, em especial a tartaruga marinha verde e os peixes-boi (dugong). 
In the near absence of green turtles today, turtlegrass beds grow longer blades that baffle currents, shade the bottom, start to decompose in situ, and provide suitable substrate for colonization by the slime molds that cause turtlegrass wasting disease. Deposition within the beds of vastly more plant detritus also fuels microbial populations, increases the oxygen demand of sediments, and promotes hypoxia […]. Thus, all the factors that have been linked with recent die-off of turtlegrass beds in Florida Bay […], except for changes in temperature and salinity, can be attributed to the ecological extinction of green turtles. P. 634.


Ostras e a eutrofização dos estuários

** Ecossistemas marinhos mais degradados: sedimentação, turbidez, hipóxia e anóxia, perda de campos marinhos, perda generalizada do habitat das ostras, eutrofização, multiplicação de águas-vivas, surtos de algas tóxicas.
  • Chesapeake Bay, Pamlico Sound (ambos nos EUA) e Mar Báltico. A agricultura e o carreamento de sedimentos, em si, não destruíram os estuários nessas localidades. A extinção da fauna marinha, especialmente a sobrepesca mecanizada das ostras, o provocou.   
Vast oyster reefs were once prominent structures in Chesapeake Bay […], where they may have filtered the equivalent of the entire water column every 3 days […]. Despite intensive harvesting by aboriginal and early colonial populations spanning several millennia, it was not until the introduction of mechanical harvesting with dredges in the 1870s that deep channel reefs were seriously affected […]. Oyster catch was rapidly reduced to a few percent of peak values by the early 20th century […]. Only then, after the oyster fishery had collapsed, did hypoxia, anoxia, and other symptoms of eutrophication begin to occur in the 1930s […], and outbreaks of oyster parasites became prevalent only in the 1950s […]. P. 634.



Sobrepesca de ostras
↔
Degradação dos estuários

  • Pamlico Sound: reintrodução das ostras. Finalidade: reintroduzir coletores de plâncton em suspensão, limitando o supercrescimento do plâncton e a consequente eutrofização dos estuários.   




A precedência da sobrepesca dentre os distúrbios humanos causados nos ecossistemas marinhos

** Causas da degradação dos ecossistemas costeiros e oceânicos, em ordem de precedência cronológica e de relevância:
  • Sobrepesca
  • Poluição
  • Destruição mecânica de habitats (exemplo: coleta de ostras em larga escala)
  • Introdução de espécies invasoras
  • Mudanças climáticas.
Overfishing of large vertebrates and shellfish was the first major human disturbance to al coastal ecosystems examined [...]. Ecological changes due to overfishing are strikingly similar across ecosystems despite the obvious differences in detail. […]. Their timing in the Americas and Pacific closely tracks European colonization and exploitation in most cases. However, aboriginal overfishing also had effects, as exemplified by the decline of sea otters (and possibly sea cows) in the northeast Pacific thousands of years ago.
There are three important corollaries to the primacy of overfishing. The first is that pollution, eutrophication, physical destruction of habitats, outbreaks of disease, invasions of introduced species, and humaninduced climate change all come much later than overfishing in the standard sequence of historical events […].
The second important corollary is that overfishing may often be a necessary precondition for eutrophication, outbreaks of disease, or species introductions to occur […].
The third important corollary is that changes in climate are unlikely to be the primary reason for microbial outbreaks and disease. The rise of microbes has occurred at different times and under different climatic conditions in different places, as exemplified by the time lag between events in Chesapeake Bay and Pamlico Sound […]. Anthropogenic climate change may now be an important confounding factor, but it was not the original cause. Rapid expansion of introduced species in recent decades […] may have a similar explanation, in addition to increase in frequency and modes of transport. Massive removal of suspension feeders, grazers, and predators must inevitably leave marine ecosystems more vulnerable to invasion. P. 635.


** A eutrofização dos mares e oceanos tem sido atribuída tão-somente ao acúmulo de nutrientes e, mais recentemente, às mudanças climáticas. Dada a carência de pesquisas com enfoque histórico, a sobrepesca tem sido negligenciada.

** Nos períodos mais recentes a velocidade dos impactos da sobrepesca sobre os ecossistemas aumentou exponencialmente.

** A sobrepesca alterou sensivelmente os ecossistemas marinhos em todos os períodos estudados: aborígene (ao contrário do comumente apregoado), colonial e global. Sobrepesca da lontra marinha e do peixe boi marinho (cow fish) por sociedades simples do nordeste do Pacífico há milênios (levando-os praticamente à extinção antes do início do período colonial).
  • Desse modo, eventos tais como poluição, eutrofização, destruição física de habitats, doenças, introdução e disseminação de espécies invasoras, muito mais recentes, não são suficientes para explicar os colapsos ocorridos milênios atrás.
  • Extinção de espécies por meio da sobrepesca é pré-condição da eutrofização.
  • Proliferação de micro-organismos nos habitats aquáticos: não é recente. Desse modo, não pode ser explicada exclusivamente pelo aquecimento global.



Efeitos sinérgicos das perturbações antropogênicas

** A extinção de níveis tróficos inteiros torna os ecossistemas mais vulneráveis a perturbações naturais e humanas, tais como carreamento de sedimentos, eutrofização, doenças, tempestades e mudanças climáticas.

** O colapso dos ecossistemas marinhos não ocorre gradualmente. Antes, ocorre de forma abrupta, como resultado da sinergia das perturbações antropogênicas e naturais.  

** A biodiversidade funciona como mecanismo de redundância que atrasa o colapso dos ecossistemas marinhos.


Microbialização da costa oceânica ao redor do globo

** Sobrepesca ↔ Multiplicação dos microorganismos responsáveis pela eutrofização das águas dos mares e oceanos.
  • Deterioração das algas in situ >> Eutrofização.
  • Proliferação de algas venenosas.
  • Doenças em espécies marinhas.
  • Ameaças à saúde humana (exemplo: cólera).


** Chesapeake Bay, Mar Báltico, Mar Adriático.

** Diante da falta de perspectiva histórica, os planos de recuperação de áreas degradadas têm sido elaborados considerando que as principais causas da proliferação de micro-organismos nos ecossistemas marinhos deriva do carreamento de nutrientes, da poluição ou do aquecimento global, não da sobrepesca.

** Como fruto da perspectiva histórica, descobriu-se que é possível restaurar os ecossistemas marinhos degradados, mediante manejo faunístico.
  • Experimentos em Pamlico Sound demonstraram que até mesmo a restauração parcial da população de ostras é  capaz de reduzir significativamente a eutrofização das águas costeiras. 

In summary, historical documentation of the long-term effects of fishing provides a heretofore-missing perspective for successful management and restoration of coastal marine ecosystems. Previous attempts have failed because they have focused only on the most recent symptoms of the problem rather than on their deep historical causes. Contrary to romantic notions of the oceans as the “last frontier” and of the supposedly superior ecological wisdom of non-Western and precolonial societies, our analysis demonstrates that overfishing fundamentally altered coastal marine ecosystems during each of the cultural periods we examined. Changes in ecosystem structure and function occurred as early as the late aboriginal and early colonial stages, although these pale in comparison with subsequent events. Human impacts are also accelerating in their magnitude, rates of change, and in the diversity of processes responsible for changes over time. Early changes increased the sensitivity of coastal marine ecosystems to subsequent disturbance and thus preconditioned the collapse we are witnessing. P. 293.

Artigo publicado em periódico. De naturalista a militante: a trajetória de Rachel Carson

Universidade de Brasília - UnB Centro de Desenvolvimento Sustentável - CDS Centro Universitário de Brasília - Uniceub Faculdade de Direito P...