terça-feira, 24 de junho de 2014

Esquema de Leitura: Fundamentos de Política e Gestão Ambiental, Maria Augusta Bursztyn e Marcel Bursztyn

Universidade de Brasília - UnB
Centro de Desenvolvimento Sustentável - CDS
Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Sustentável
Doutorado
Socioeconomia do Meio Ambiente
Professores: Marcel Bursztyn e Doris Sayago
Aluna: Juliana Capra Maia
Esquema de Leitura
Texto: BURSZTYN, Maria Augusta; BURSZTYN, Marcel. Fundamentos de Política e Gestão Ambiental. Rio de Janeiro, Editora Garamond, 2012, capítulos 01, 05 e 06.


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CAPÍTULO 01 - DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE
  • Desenvolvimento Sustentável >>> Causa que, ao final do século XX, adquiriu enorme convergência em curto lapso temporal (adoção do conceito no Relatório Brundtland, em 1987). Causa fomentada principalmente pelos alertas contra acidentes naturais e contra os impasses ambientais. 
  • E por que não chegamos lá? Inicialmente, porque o desenvolvimento sustentável transformou-sem eu um discurso politicamente correto, mais que uma prática dos atores sociais. Em segundo lugar, porque os cientistas ainda não entraram em consenso acerca das causas dos principais fenômenos ambientais (efeito estufa, aquecimento global, etc.). 
"O processo de alteração de rumos é lento, por demanda mudanças de práticas consolidadas econômica e culturalmente. Demanda tempo, convencimento de grupos de interesse, confirmação científica de suposições. E demanda, sobretudo, adaptação dos mecanismos de regulação: da ética, que rege cada indivíduo; da orientação seguida pela pesquisa científica e tecnológica e pela inovação; das normas que condicionam nossas condutas na sociedade.
O conceito de Desenvolvimento Sustentável ainda está à mercê de ambiguidades e incertezas. Mas é um vetor importante para se entender e enfrentar os problemas atuais da humanidade. Um dos seus elementos cruciais e, sem dúvida, o esforço de promover um entrosamento do olhar econômico (e às vezes até social) com a dimensão ambiental. Esse foi um notável salto qualitativo, que abriu espaço para uma abordagem interdisciplinar e de longo prazo da busca do bem-estar material". Pp. 33.  
  • E por que ninguém se opõe ao Desenvolvimento Sustentável? Porque a ideia de sustentabilidade foi absorvida como uma utopia. 

UTOPIAS 

  • Utopia >>> Palavra -- que em latim significa, literalmente, "nenhum lugar" -- cunhada por Thomas Morus para, em uma crítica contra os hábitos renascentistas, descrever uma sociedade ideal (fictícia) residente em uma ilha casualmente descoberta por um marinheiro da esquadra de Américo Vespúcio. Os habitantes da ilha seriam pessoas pacíficas e virtuosas. Lá, não haveria a propriedade privada, todos trabalhariam moderadamente, ninguém usaria jóias ou roupas luxuosas (pp. 33/34).
  • Distopia >>> Palavra cunhada por John Stuart Mill, no século XIX (auge da 1ª Fase da Revolução Industrial), para designar circunstâncias completamente opostas à utopia feliz de Thomas Morus: fome, violência, miséria, degradação moral, degradação ambiental, opressão, guerra. 
  • Utopias e distopias ao longo da História >>> O Jardim do Éden (Gênesis); O mundo das ideias (Platão); a lenda do Eldorado (que atraiu Orellana a uma viagem do Equador até a foz do Rio Amazonas); A Cidade do Sol (Tommaso Campanella, 1603); A Nova Atlantis (Francis Bacon, 1624); O Falanstério (Fourrier); A Ville Radieuse (Le Corbusier); O Comunismo (Marx e Engels, O Manifesto do Partido Comunista); Shangri-lá (James Hilton, 1925); O Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley); O mundo de Imagine (John Lennon); Brasília (a cidade construída sobre uma terra "de onde jorrariam leite e mel", conforme visões de Dom Bosco). 
"Uma lição pode ser tirada do estudo das diversas formulações de utopias e distopias: todas são o fruto de um momento, a materialização de um desejo consciente ou inconsciente, um brado de otimismo quanto a um futuro melhor ou de pessimismo político ou místico. 
É nesse quadro que se inscreve o debate sobre o desenvolvimento sustentável. Após o colapso ou a crise das utopias do século vinte (socialismo, salvacionismo científico, welfare state, consumismo, desenvolvimentismo), o mundo não encontrou a paz nem resolveu as necessidades básicas, a ciência não solucionou todos os problemas (e até criou outros), o mundo natural se degradou. A utopia do ecodesenvolvimento aparece no Relatório Brundtland, de 1987, que lança a ideia de desenvolvimento sustentável prescrevendo uma série de medidas que devem ser tomadas pelos países [...]. Pp. 35.  


"O DS, como utopia para o século XXI, traz uma novidade bem clara em relação aos projetos de utopia anteriores: o imperativo da dimensão ambiental como atributo indissociável da "busca da felicidade". Pp. 35. 


A MAIS MODERNA DAS UTOPIAS 


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CAPÍTULOS 05 E 06 

** Aumento da degradação ambiental do planeta >>> Forte repercussão na esfera política nas últimas três décadas do século XX.
  • Proliferação de legislações e de organismos públicos voltados à regulação e à gestão ambiental.
  • Agência de Proteção Ambiental dos EUA, criada em 1970.

** Contexto: As preocupações com o meio ambiente se proliferaram em um período de profundas mudanças no papel do Estado, como ente provedor e regulador da sociedade.
  • Crise do Petróleo de 1973/1974: revisão do modelo keynesiano.
  • Proposta Neoliberal >>> Redução da intervenção pública. O Estado deveria ser menor, menos empreendedor, menos provedor e, portanto, mais barato para os contribuintes. Onda de desestatização que marcou todo o mundo, inclusive os países que haviam experimentado vias socialista (bloco da ex-URSS) ou socialdemocratas (Escandinávia).

** Meio ambiente na contracorrente da intervenção pública >>> Se, por um lado, o final do século XX assistiu à onda de desestatizações e de redução do papel do Estado nas mais diversas esferas sociais, por outro lado, assistiu à maior intervenção do Estado nos assuntos relativos à regulação e à gestão ambiental.
  • Institucionalização da problemática relativa ao meio ambiente, a partir da década de 1970, como foco específico da ação pública.


Política Ambiental


Definição: entende-se por política ambiental o conjunto de iniciativas governamentais, envolvendo diferentes organismos e setores de intervenção pública, em articulação com atores não governamentais e produtivos, voltadas à proteção, conservação, uso sustentável e recomposição dos recursos ambientais. O foco é não apenas o ambiente biofísico, mas também o modo como as populações e as atividades produtivas interagem com os diferentes ecossistemas. O ambiente construído, que inclui cidades e infraestruturas em geral, também faz parte do escopo das políticas ambientais. Pp. 182.


** Proliferação, nas décadas de 1970 e 1980, das instâncias administrativas de controle e proteção ambiental no âmbito internacional, regional, nacional, estadual e local.
  • 1973, Brasil. Criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente – SEMA, no âmbito do Governo Federal.
  • Conflitos entre instituições. A ação dos organismos responsáveis pela gestão e regulação ambiental invadia redutos com estrutura burocrático-administrativa cristalizada, refratária à interação.
  • Problemática ambiental: transversal. Perpassa todas as pastas ministeriais. O ideal é que, com o tempo, as questões ambientais sejam absorvidas pelas diversas instituições públicas, de modo que o MMA possa lidar com menos questões.
Então, se o modelo norte-americano pode ser uma referência [...], é de se supor que a constituição, no Brasil, dos Sistemas Estaduais e Municipais de Meio Ambiente, pode vir a resultar em que se tenha um corpo mais reduzido na área ambiental, no âmbito da União. Em síntese, na área de meio ambiente a tendência é que haja internalização de responsabilidades em outros órgãos da União, paralelamente a uma descentralização e desconcentração de funções para o nível dos estados e municípios. Pp. 181.


** Condições para que os objetivos das políticas ambientais sejam satisfatoriamente atingidos >>>
  • A política ambiental tem que ser factível.
  • A política ambiental deve contar com uma base legal sólida e pragmática, isto é, com boas leis, realistas e aplicáveis. Os instrumentos coercitivos devem ser plausíveis e as sanções, efetivas.
  • Instituições públicas consolidadas, legitimadas e fortalecidas (rotinas transparentes, recursos humanos capacitados).
  • Integração e harmonia com as demais políticas públicas, dado que a política ambiental é transversal, dependendo do funcionamento do sistema político e econômico real.
  • As políticas ambientais devem ser convergentes com as diretrizes políticas nacionais e com as opções geopolíticas de escala internacional.
  • As políticas ambientais devem manter a flexibilidade necessária ao contínuo aprimoramento dos instrumentos de intervenção pública e de proteção ambiental, de modo que possam adaptar-se, em tempo razoável, às mudanças em curso.
  • As políticas ambientais devem produzir informação sobre a qualidade ambiental, de modo a permitir avaliações e a calibragem dos instrumentos de regulação. É necessário o estabelecimento de indicadores, que devem ser aferidos sistematicamente. Ademais, a publicidade dessas informações ambientais tende a reduzir o espaço para conflitos.   


** Etapas das políticas ambientais >>>
1.      Definição do problema.
2.      Colocação do problema na agenda política.
3. Processo de decisão. 
 4. Implementação da política. 
5. Impactos e avaliação da política.

** Observação >>> Interesses Globais ≠ Interesses Nacionais ≠ Interesses Locais

Os países elaboram as suas políticas ambientais em diferentes escalas (nacional, regional, estadual ou local) em função de suas características próprias de meio natural, de padrão de desenvolvimento econômico, de processo e estrutura de urbanização e das expectativas da população em relação à qualidade do meio ambiente. Portanto, os objetivos a serem alcançados e as suas consequências econômicas variam em cada país.
Além disso, diferentes níveis de governo podem significar diferentes interesses políticos em jogo. Uma estratégia nacional pode não corresponder ao desejo de todas as forças que se expressam numa determinada região e vice-versa [...].
Alguns instrumentos das políticas públicas, em geral, e das ambientais, em particular, procuram agir no sentido de minimizar ou compensar perdas na esfera local decorrentes de iniciativas de interesse nacional ou global. Um exemplo, no caso brasileiro, é o pagamento de royalties aos municípios e estados por parte de empresas que exploram recursos hídricos (hidrelétricas) e extraem hidrocarbonetos [...].
A experiência brasileira mostra que, na área ambiental, conflitos entre os três níveis de governo podem provocar limitações, particularmente na implementação dos instrumentos reguladores. É comum que o processo de licenciamento ambiental de empreendimentos sujeitos à legislação federal sofra morosidade, ainda que sejam demandas urgentes dos estados ou municípios. É frequente, também, que prioridades nacionais sejam obstaculizadas por trâmites nas outras esferas de governo. Pp. 185 e 186.


** 3 Gerações de Políticas Públicas Ambientais >>> 
  • Primeira Geração. Ações setoriais. Antecedeu a institucionalização de organismos e instrumentos voltados ao meio ambiente de forma geral. Normatização do uso de determinados recursos ambientais, tal como a água ou a madeira. Exemplo no Brasil: Código de Águas, de 1934 (responsabilidade: DNPM).
  • Segunda Geração. Foco em instrumentos de comando e controle, com destaque para a regulamentação estatal. Desenvolveu-se a partir dos anos 1970 e se estendeu até o final do século XX. Foram instituídas políticas contra a poluição do ar, da água, do solo, além de políticas de conservação de áreas naturais. Criação de organismos públicos destinados à gestão ambiental. Forte influência dos princípios do poluidor-pagador, da prevenção, da precaução e da participação. 
  • Terceira Geração. Emergência de novos atores no cenário da governança ambiental: internacionais, ligados aos setores produtivos ou aos movimentos sociais. Desenvolvimento de instrumentos econômicos e voluntários de regulação ambiental. Forte influência dos princípios do poluidor-pagador, da prevenção, da precaução e da participação.  


** Princípios Ambientais >>>
  • Princípio do Poluidor-Pagador.
O mais antigo e mais conhecido dos princípios gerais que fundamentam as políticas ambientais. Definido pela primeira vez em março de 1972.
Consiste na transferência, aos poluidores, dos custos da prevenção e da luta contra a poluição. O responsável pela poluição torna-se “o primeiro pagador”, de modo que os custos da poluição, obrigatoriamente, passam a ser considerados no processo decisório, tanto quanto os custos sobre a mão-de-obra ou sobre a matéria prima.
Não visa à punição do poluidor, mas à modificação do seu comportamento. Em médio e longo prazo, o produtor é induzido a investir em tecnologias menos poluentes, o que barateia o custo final de sua produção.
No final dos anos 1980, implementou-se o princípio do Usuário-Pagador, como complementação ao princípio do Poluidor-Pagador. Trata-se da internalização do custo associado à exploração e à transformação dos recursos ambientais, bem como da internalização dos custos relativos aos danos ambientais decorrentes dessas etapas (pp. 190).
No Brasil, a Lei n. 6.938/81 (PNMA) adotou os Princípios do Poluidor-Pagador e do Usuário-Pagador. A Lei de Águas (9.433/97) autoriza a cobrança pelo uso de recursos hídricos (outorga), consagrando o Princípio do Usuário-Pagador.  

  • Princípio da Prevenção.
          Gestão de riscos conhecidos.
De acordo com esse princípio, cabe ao empreendedor, público ou privado, adotar ações de eliminação ou de mitigação dos danos ambientais comprovados e irreversíveis de seu empreendimento.
Para tanto, a variável ambiental deve ser incorporada desde a concepção do empreendimento, por meio da Avaliação de Impactos Ambientais – AIA.

        
  • Princípio da Precaução.
            Agir e pensar com visão de longo prazo, a fim de evitar o irreversível, mesmo na falta de certezas científicas. Princípio valorizado a partir do início da década de 1980, passando a constar de vários documentos e tratados internacionais dirigidos à proteção ambiental.

O princípio da precaução prolonga e completa o princípio da prevenção. Como exposto acima, o princípio da prevenção se baseia numa avaliação de riscos, em função de certezas cientificas vigentes. No caso, sabe-se que o risco existe e que o dano acontecerá se nenhuma ação for empreendida. Já o princípio da precaução permite agir mesmo na ausência de toda certeza científica; ou seja, a falta de certeza científica não deve justificar a falta de ação. As medidas preventivas devem ser adotadas em qualquer intervenção humana no meio ambiente, mesmo que haja dúvidas quanto à gravidade e à irreversibilidade dos efeitos adversos desta intervenção. Pp. 192 e 193.


Quais são os procedimentos a serem adotados para atender satisfatoriamente o Princípio da Precaução? De acordo com Kourilsky e Viney (apud. pp. 195):

[...]. O documento afirma que sair da incerteza impõe uma obrigação de pesquisa e que é indispensável a identificação e análise científica dos riscos. Esta análise de risco deve comparar as diferentes hipóteses de ação e inação e deve ser acompanhada de uma análise econômica que leve a uma análise de custo/benefício previamente à decisão.
As decisões devem, na medida do possível, ser revisáveis e as soluções adotadas reversíveis e proporcionais à magnitude e relevância do problema [...]. O público deve ser informado, da melhor maneira possível, e os eu grau de participação deve ser regulamentado e ajustado pelo poder público. Pp. 195 e 196.


  • Princípio da Participação.
            Princípio inscrito de forma explícita na Declaração do Rio, de 1992. Consta, ainda, da Constituição Federal Brasileira, de 1988 e está previsto na Lei n. 6.938/1981, que instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente – PNMA. Como a sociedade pagará, direta ou indiretamente, pelos custos associados à degradação ambiental e à recuperação ou mitigação dos impactos ambientais, mostra-se mais que justo considerar seu posicionamento ante à implementação de empreendimentos efetiva ou potencialmente poluidores, de interesse do governo ou de empreendedores particulares.  

O princípio da participação diz respeito ao direito que os diferentes atores da sociedade (cidadãos, associações, grupos, organizações) têm, no sentido de uma ação ativa no enfrentamento dos problemas ambientais. Ele está diretamente ligado ao direito à informação, que é uma condição essencial para garantir uma efetiva participação da sociedade. Na área ambiental, o processo decisório está fortemente baseado na participação social, que se dá em diferentes níveis, variando desde a escala das regulamentações gerais até a execução de gestão de projetos locais. Pp. 196.

Ademais, as políticas ambientais tendem a ser mais efetivas se forem apropriadas pela sociedade civil.
O envolvimento crescente da sociedade civil nos assuntos públicos vem se confirmando como uma tendência marcante do Estado desde o final do século XX.
O fortalecimento de mecanismos de democracia participativa é estimulado por organismos internacionais, tais como o Banco Mundial. Desse modo, no último quarto do século XX, segmentos da sociedade civil passaram a ter acesso a mecanismos decisórios públicos, tais como assento em órgãos colegiados e voz em audiências públicas.
No Brasil, a sociedade civil tem assento em espaços institucionalizados, tais como os Conselhos Estaduais e Municipais de Meio Ambiente, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, os Comitês de Bacia Hidrográfica, os Conselhos Consultivos ou Deliberativos de Unidades de Conservação. Ademais, a Resolução Conama 001/86 prevê a participação direta de indivíduos em audiências públicas de estudos de impacto ambiental.



Gestão Ambiental

“Conjunto de ações envolvendo políticas públicas, setor produtivo e sociedade civil, para garantir a sustentabilidade dos recursos ambientais, da qualidade de vida e do próprio processo de desenvolvimento, dentro de um complexo sistema de interações da humanidade com os ecossistemas”. Pp. 200.


Governança >> Politics >> Jogos de Poder e Estratégias

Gestão >> Policies >> Modos de intervenção


** Razões da gestão ambiental >>>
  • Pragmáticas. Medo das possíveis consequências, à população e ao setor produtivo, de desastres ambientais.
  • Economia de gastos. É mais barato prevenir que sanar problemas ambientais. Há vantagens econômicas na conservação de energia e na manutenção da qualidade ambiental.
  • Conformidade com as exigências legais. Leis internacionais, nacionais e locais obrigam a adoção de medidas de proteção e controle ambiental.
  • Evolução na ética.
  • Razões macroeconômicas.

** Objetivos da gestão ambiental >>>
  • Criação e implementação de um arcabouço legal.
  • Prevenção e resolução de problemas ambientais.
  • Criação e fortalecimento de instituições que contribuam para o aumento do conhecimento dos recursos ambientais, do seu controle, monitoramento e vigilância.
  • Otimização do uso dos recursos naturais.
  • Identificação e respeito à capacidade de suporte dos ecossistemas.
  • Manutenção e, se possível, ampliação do estoque de recursos ambientais.
  • Busca da melhoria da qualidade ambiental, da qualidade de vida das populações e de desenvolvimento econômico e social com proteção ambiental; e
  • Identificação de novas tecnologias, processos, instrumentos e políticas que contribuam para o uso sustentável dos recursos ambientais.


** Ações, critérios e princípios que podem contribuir para o fortalecimento da gestão ambiental >>>
  • Aperfeiçoamento dos métodos de ajuda à decisão.
  • Propiciar uma efetiva participação da população.
  • Priorizar ações preventivas sobre as ações corretivas.
  • Gerenciar o meio ambiente dentro de uma abordagem global.
  • Utilizar adequadamente os diferentes tipos de instrumentos de política ambiental.
  • Enfrentar os fenômenos de degradação por meio de ações corretivas, monitorar a capacidade de suporte e resiliência dos meios receptores e monitorar o estoque de recursos ambientais.
  • Repassar a instâncias não governamentais atribuições não exclusivas do Poder Executivo, agindo subsidiariamente.
  • Firmar parcerias com ONGs ou empresas, corresponsabilizando-as (gestão partilhada).
  • Empoderamento das instituições e atores locais.
  • Responsabilização dos atores responsáveis pela execução das políticas ambientais (accountability).
  • Fortalecimento das instituições públicas que atuam na gestão ambiental. O ideal é que as instituições públicas regulamentem mais e executem menos
  • Continuidade.
  • Descentralização, isto é, transferência do poder decisório para instancias subnacionais.
  • Desconcentração.
  • Flexibilidade, ou seja, gradualismo na implementação dos instrumentos de gestão ambiental.
  • Desburocratização, isto é, simplificação dos procedimentos administrativos, processuais e normativos.
  • Capacitação permanente do corpo técnico das agências de meio ambiente.
  • Valorização do capital social, isto é, das redes de relações mútuas de conhecimento e reconhecimento.


Tipologia dos instrumentos de gestão ambiental

Visando a uma utilização sustentável dos recursos ambientais e ao respeito às normas de qualidade ambiental, a política ambiental pode recorrer a duas estratégias fundamentais, separadamente ou em conjunto, em diferentes proporções. A primeira delas tem foco na implantação de projetos e programas públicos destinados à prevenção, compensação e reparação das degradações ambientais. Pode ter como base também empreendimentos e atividades que estimulem mudanças de comportamento, tais como obras de infraestrutura, recuperação de áreas degradadas e criação de unidades de conservação. A segunda estratégia tem como objetivo influenciar o processo de tomada de decisão em nível microeconômico, ou seja, dos agentes econômicos (consumidores, produtores, investidores, dentre outros) cujas ações impactam o meio ambiente (OCDE, 1994). Pp. 207.


** Instrumentos regulamentares ou coercitivos >>>
  • Também denominados “Comando e Controle”.
  • Visam influenciar o poder público, o setor produtivo ou a população a adotarem este ou aquele comportamento mais compatível com a boa qualidade do meio ambiente.
  • Instrumentos coercitivos “que incidem sobre processos produtivos, limitam ou proíbem o lançamento de certos poluentes, regulamentam o uso do solo e controlam atividades, por meio de autorizações, normas e sanções (em caso de descumprimento das regras estabelecidas pelo poder público).” Pp. 213
  • Instrumentos de Comando e Controle já vêm sendo usados há várias décadas.
  • Ajudam a internalizar, no processo de produção, os custos com a degradação de bens ambientais livres ou comuns (degradação que é uma “externalidade”). Os custos ambientais passam a ser considerados na cadeia produtiva, da mesma forma que os custos com mão de obra ou com impostos.
  • Formato: abordagem normativa e jurídica da política ambiental.
a) Normas de lançamento ou de emissão >>> Visam obrigar os poluidores, potenciais ou efetivos, a não lançar no meio ambiente mais que uma determinada quantidade de poluição. Bastante utilizadas no controle da poluição do ar, da água e da poluição sonora. Tratam todos os poluidores da mesma forma. Sua aplicação é menos complexa. 
b) Normas de processos ou de procedimentos >>> Obrigam a utilização de tecnologias específicas para reduzir emissões. Exemplo: exigência de catalisadores em automóveis.
c) Normas de produto  >>> Especificam as características dos produtos poluentes. Exemplo: normativos que regulamentam a composição dos combustíveis ou a eficiência energética mínima de geladeiras. 
d) Normas de qualidade  >>> Tratam da qualidade desejável de um recurso natural (água, ar, silêncio). 
e) Outros formatos >>> Sistema de autorização prévia (licenciamento ambiental) e o Zoneamento Ambiental.
  • Vantagens  >>>
a) Facilitam as avaliações dos custos X benefícios das políticas ambientais. 
b) Flexível, possui capacidade de adaptação às diversas situações. 
c) Conhecida ab initio pelos atores envolvidos: empreendedores, população e gestores públicos. 
d) São os únicos mecanismos disponíveis para prevenir os riscos inaceitáveis e os efeitos irreversíveis, tais como em questões relativas à saúde humana ou à segurança de usinas nucleares.
  • Desvantagens  >>>
a) Tendem a fixar níveis mínimos e máximos. Não há incentivos para a atualização tecnológica quando os mecanismos disponíveis atendem às exigências da norma. 
b) Atingem todos os agentes da mesma maneira, sem considerar as diferenças de custos e a possiblidade de ação dos diversos atores envolvidos no processo, o que pode custar coletivamente mais caro. 
c) Para que atinjam seus objetivos, demandam fiscalização eficaz e constante. 
d) Clima de conflito entre regulador e regulado. 
e) A complexidade crescente dos problemas e o número elevado de atores envolvidos faz com que a sua aplicação seja morosa e incerta. 
f) Para que seja aplicável, a autoridade pública que elabora a norma tem que conhecer precisamente os custos e as condições da produção. Mesmo assim, a aplicação da norma está sujeita a erros. 
g) Alto custo burocrático.
  • As normas técnicas devem ser continuamente atualizadas, de modo que o Estado exija dos empreendedores a “aplicação da melhor técnica disponível”.
  • Exemplos: licenciamento ambiental, padrões ambientais, criação de unidades de conservação.


** Instrumentos econômicos ou incitativos >>>
  • Instrumentos que oneram comportamentos agressivos ao meio ambiente, internalizando externalidades ambientais provocadas pela atividade produtiva.
  • Visam fomentar na sociedade e no setor produtivo um comportamento ecologicamente correto, por meio da modificação das relações entre custos X benefícios disponíveis aos atores sociais. 
Nas economias de mercado, os diversos danos (sejam eles contratuais ou de fornecimento) entre agentes privados são cobertos por algum tipo de indenização financeira ao agente prejudicado. Ora, se é assim para os fatores de produção que envolvem a gestão empresarial, por que não incluir também a degradação ambiental?
Aceitando esse enfoque, pode-se considerar que a degradação ambiental tem um “preço” que deve ser pago pelo causador do dano. Isso pode ser feito por um sistema de cobrança específico, que permite às atividades poluidoras (em se tratando de poluição) se ajustar a padrões compatíveis com o interesse coletivo e com o bem-estar geral, expressos na qualidade ambiental. É nesse sentido que um dos objetivos principais desses instrumentos é mudar padrões e comportamentos dos usuários/poluidores, para assegurar uma adequada conservação da qualidade ambiental.
Além disso, atribuindo-se valores (preço justo) aos recursos ambientais, pode-se conseguir a sua alocação mais adequada enquanto fatores de produção. Assim sendo, sempre que o custo da degradação ambiental imputado ao poluidor implicar aumento dos custos médios de produção, considerando as condições dadas pelo mercado, haverá uma tendência à redução dos mesmos, por meio de investimentos em despoluição ou em mudanças tecnológicas (reciclagem, novos insumos, novas técnicas). Pp. 222 e 223. 

  • Formato: “[...] transferências financeiras dos agentes públicos e privados ao governo, por meio da cobrança de diferentes taxas (sobre emissões, produtos e serviços prestados) ou pela criação de novos mercados, como as licenças negociáveis, também denominadas direitos de emissão. Podem assumir também o sentido inverso da cobrança, na forma de subsídios a alguma atividade identificada como relevante”. Pp. 222.
  • Categorias: “ecotaxas” (taxas sobre emissões de poluentes e taxas por produto), sistema de consignação (ou de depósito-retorno), taxas sobre serviços prestados, taxas administrativas, certificados negociáveis de emissão, subsídios e incentivos financeiros.
  • Vantagens  >>>
a) Possibilidade de redução dos custos da produção, dado que os poluidores passam a escolher meios mais apropriados para atingir a norma estabelecida. 
b) Incentivo permanente à redução da poluição. 
c) Forte estímulo a mudanças tecnológicas, mais adequadas à boa qualidade ambiental. 
d) Maior flexibilidade, dado que é bem mais simples para o Poder Público alterar ou ajustar uma taxa do que mudar a legislação ou determinada regulamentação. Por outro lado, os poluidores mantêm sua liberdade de escolha e de adaptação. 
e) Fonte de financiamento. Os instrumentos econômicos têm a função de coletar fundos que podem ser destinados a programas ambientais específicos, ou à política fiscal do governo.
  • Condições necessárias aos instrumentos econômicos >>>
a) Base consistente de dados e informações. 
b) Estrutura jurídica sólida. 
c) Mercados competitivos. 
d) Capacidade administrativa.
  • Critérios de escolha e da formulação de instrumentos econômicos >>>
a) Reduzido volume de informações requeridas. 
b) Baixo custo administrativo. 
c) Equidade (cautela com instrumentos regressivos). 
d) Fidedignidade (a eficácia ambiental do sistema deve ser a mais confiável possível). 
e) Adaptabilidade face às mudanças tecnológicas, aos preços e às condições climáticas. 
f) Incentivo dinâmico (os instrumentos devem contribuir para a melhoria ambiental e a inovação tecnológica). 
g) Aceitação política. 
  • Exemplo: sistema de cobrança francês, pela poluição das águas, em 1967. Isenções fiscais para equipamentos que incorporem tecnologias verdes.

** Acordos voluntários >>>
  • Contratos negociados ou compromissos voluntários.
  • Exemplo: normas da série ISO 14000

** Instrumentos persuasivos >>>
  • Têm como objetivo convencer a população ou os setores produtivos a adotarem comportamentos favoráveis ao meio ambiente.
  • Baseiam-se na informação, na formação, no desenvolvimento do conhecimento científico e na sua difusão.

** Ação direta do Estado >>>
  • Obras para fornecimento de serviço de saneamento, construção de estações de tratamento de esgoto, coleta e disposição final de resíduos sólidos, descontaminação de recursos hídricos.

** Outras classificações (pp. 208) >>>
  • Larrue: instrumentos coercitivos, incitativos, persuasivos ou de infraestrutura.
  • OCDE: instrumentos coercitivos, econômicos, responsabilidade e indenização de danos, educação e informação, abordagens voluntárias, gestão e planejamento.
  • Valeé: instrumentos regulamentares, econômicos, de informação, acordos voluntários, ação pública direta.
  • Jordan, Wurzel e Zito: instrumentos regulamentares, de mercado, de informação e acordos voluntários.
  • Lacoste, Theys e Hors: instrumentos regulamentares, instrumentos de mercado, instrumentos negociados e ação pública direta.
  • Herrero: instrumentos regulamentares e normativos, instrumentos econômicos (incentivos e desincentivos), medidas econômicas estruturais, persuasão moral e corresponsabilidade social, autorregulação voluntária, planejamento e investimento público, acordos de gestão global, reforma dos direitos de propriedade.
  • Bürgenmeier: regulamentação direta, instrumentos econômicos e outros instrumentos.
Todas as classificações têm, como pano de fundo, experiências de vários países. O maior ou menor grau de incidência de cada categoria de instrumentos pode variar de um país a outro e, sem dúvida, expressa um processo de evolução. No início, prevaleciam os mecanismos regulamentares. Aos poucos, forma se afirmando instrumentos econômicos. Na medida em que a legitimidade do caráter intervencionista do Estado evoluiu para formas mais indiretas de regulação, outras práticas surgiram, como é o caso dos acordos voluntários. Pp. 210.

** Os instrumentos de gestão ambiental são complementares. São escolhidos pelo Poder Público a partir de diferentes critérios, tais como: efeitos econômicos, aceitação política, conformidade com acordos internacionais, competitividade internacional, baixos custos operacionais, facilidade de implementação, flexibilidade, integração do instrumento com outras políticas públicas setoriais (tais como as políticas públicas de transportes, de energia ou de agricultura), eficiência ambiental, tradições políticas, conjuntura social ou política sobre a qual os instrumentos podem ter efeitos secundários.


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MAPAS MENTAIS DOS INSTRUMENTOS DE GESTÃO AMBIENTAL

** Crédito: Marília Teresinha.

Instrumentos regulamentares ou de comando controle

Objetivos
- Influenciar o comportamento da sociedade, do setor produtivo e do setor público, no sentido de adotar práticas mais compatíveis com a qualidade do meio ambiente.
Fundamentos teóricos
- Trata-se do exercício de poder de policía dos entes estatais e como tal se manifesta por meio de proibições, restrições e obrigações impostas aos indivíduos e organizações, sempre autorizadas por normas legais.
- São típicos da esfera pública. 
- Baseiam-se na criação e implantação de políticas públicas que para serem operacionalizadas devem ser desdobradas em itens legais nos níveis municipal, estadual e federal.
- Sua implantação ocorre por meio da Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA).
- São mecanismos de imposição que constituem a primeira geração de instrumentos de gestão ambiental.
- São mecanismos repressivos onde a organização, em caso de descumprimento, sofre penalizações ou negociação de Termo de Ajuste de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público.
- Forma de internalização dos efeitos externos ou uma maneira de impedir a sua manifestação.
- Externalidade: quando o bem-estar e/ou a eficiência econômica de um agente afeta a outro.

Aplicações possíveis
Normas de lançamento ou de emissão, de processos e procedimentos, de produto e de qualidade.
Sistemas de autorização prévia: licenciamento ambiental
Zoneamento ambiental: delimitação de áreas de uso em função de dados ecológicos, econômicos e sociais.
Estudo prévio de Impacto Ambiental.

Vantagens
- As empresas tendem a descobrir soluções inovadoras para as pressões exercidas pela concorrência, clientes e pela legislação, as quais reduzem os custos totais de produtos;
- Exerce um papel normatizador e de agente de mudanças no panorama organizacional;
- A regulamentação facilita as avaliações monetárias dos custos e dos benefícios das políticas ambientais;
- A regulamentação é bastante flexível e tem grande capacidade de adaptação às diversas situações;
- Única forma de prevenir os riscos inaceitáveis e os efeitos irreversíveis em questões de saúde humana ou segurança nuclear.

Desvantagens
- Os órgãos reguladores têm um alto custo no desenvolvimento de tecnologia relativa aos instrumentos de mensuração da poluição, nos modelos de coleta e amostra, na administração e na fiscalização - esta acaba sendo realizada de forma descontinuada, reduzindo a eficácia da regulamentação existente.
- Fixação de níveis mínimos e máximos;
- Atingem todos os agentes da mesma maneira;
- Para atingir os objetivos exige fiscalização eficaz;
- Pode gerar clima de conflito entre o regulador e o regulado;
- Aplicação morosa e incerta das normas.
- A necessidade de um arcabouço institucional sólido pode ser um obstáculo.
- Conhecimento pela autoridade pública dos custos e as condições de produção.
- Peso burocrático e custos de implementação elevados.
- A partir do cumprimento dos padrões definidos não há incentivo para a redução de emissão de poluentes nem para a despoluição acima dos limites estabelecidos;
- Limitação a um equipamento específico, restringindo a criatividade para gerar melhorias que possam resultar em inovações.

Pontos críticos
Jogo de soma zero: muito se gasta para manter a qualidade do meio ambiente numa situação, pelo menos igual.
Passagem para uma nova fase chamada de nova regulação ambiental – dois conceitos: legislação reflexiva (autorrestrição); governança sociopolítica (delegar a instâncias descentralizadas um papel determinante na governança).

Práticas
Valor de não uso: valor intrínseco dos ecossistemas.

Exemplos
- Padrão de emissão.
- Padrão de qualidade.
- Padrão de desempenho.
- Padrão tecnológico.
- Proibições e restrições sobre produção, comercialização e uso de produtos e processos.
- Mecanismos repressivos: leis, decretos, portarias, resoluções e normas técnicas ABNT.
- Penalizações: multa, paralisação e/ou interdição.
- Normas de qualidade água e do ar, legislação sobre tratamento e disposição de resíduos sólidos.



Instrumentos econômicos

Objetivos
- Influenciar sobre benefícios e custos dos agentes econômicos induzindo mudanças nas ações, num sentido favorável ao meio ambiente.
- Criar algum tipo de retroação das consequências de uma atividade em relação a seus responsáveis.
-Fazer convergir o espaço de decisão com o espaço das consequências das ações e provocar a internalização de externalidades ambientais causadas.

Fundamentos teóricos
- São considerados complementares aos de comando e controle.
- Na economia de mercado, os diversos danos entre agentes privados provocam algum tipo de indenização ao agente prejudicado. A mesma lógica pode ser aplicada à questão ambiental. A degradação ambiental tem um preço que deve ser pago pelo causador do dano.
- Atribuição de valores aos recursos ambientais para se conseguir a sua alocação mais adequada enquanto fator de produção.
- Podem ter o seu desempenho avaliado segundo quatro critérios: eficácia, eficiência, equidade e flexibilidade.

Aplicações possíveis
Ecotaxas: direitos monetários cobrados pelo poder público aos usuários que degradam o meio ambiente, no sentido de induzir uma mudança de comportamento provocando o bem-estar coletivo. Contribuem para a internalização das externalidades econômicas, pois obrigam produtores e consumidores a considerar o custo da poluição. Podem ser consideradas “o preço da poluição ou da degradação ambiental”. Podem ampliar a aplicação do princípio poluidor-pagador se os recursos arrecadados forem para o orçamento geral.
1.       As taxas sobre emissões de poluentes: são baseadas na quantidade e na qualidade de poluentes lançados nos meios receptores (ar, água e solo) e na emissão de ruído. Consiste em impor a uma empresa uma taxa proporcional à poluição lançada, equivalente ao custo marginal de redução dessa poluição e dos danos ambientais.
2.       As taxas sobre produtos: contribuem para a adoção de uma abordagem integrada da produção e da gestão de produtos, tendo como foco os custos ambientais potenciais de cada ciclo da vida: produção, consumo e disposição dos resíduos.    Bem adaptadas às fontes de poluição difusa e fontes móveis.
Sistemas de consignação (ou de depósito-retorno): os compradores de produtos que apresentam riscos de poluição pagam um valor adicional, que é reembolsado quando o produto é devolvido aos postos de recebimento, tratamento ou reciclagem.
Incentivos financeiros: procedimentos utilizados para estimular agentes poluidores a modificar o seu comportamento – redução de carga tributária, concessão direta de subvenções, empréstimos a juros baixos aos agentes poluidores que tentem reduzir a poluição.
Taxas administrativas: pagamentos feitos ao poder público e dizem respeito ao cumprimento de normas legais, licenciamentos, registros, dentre outros.
Licenças negociáveis de emissões (ou mercado de licenças de poluição): regulação das externalidades pelo mercado; elas podem ser internalizadas pela criação de um mercado de direitos de propriedade sobre o meio ambiente.
Pagamento por serviços ambientais: reconhecimento de que quem protege o meio ambiente natural está prestando um serviço ao planeta e, por isso, pode ser remunerado.

Vantagens
a. Provocam dois grandes efeitos:
- O efeito substituição, na esfera da oferta, uma vez que a alta dos preços resultante da internalização dos custos sociais estimula a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias limpas;
-Na esfera da demanda, provoca mudanças nas preferências dos consumidores, que buscam produtos mais baratos.
b. Possibilidade de redução dos custos de produção: escolha pelos poluidores de meios mais apropriados para atingir a norma estabelecida.
c. Incentivo permanente à redução da poluição: estímulo a mudanças tecnológicas, favorecendo processos de fabricação menos poluentes.
d. maior flexibilidade: facilidade no ajuste de taxas pelo poder público do que mudar a legislação.
e. Fonte de financiamento: coleta de fundos que podem ser destinados a programas ambientais específicos.
f. Os instrumentos regulamentares atingem tanto os ricos como os pobres imparcialmente.
Licenças negociáveis de emissões: teve impacto relevante no debate público sobre gestão ambiental – mercados ou créditos de emissões ou mesmo direito de poluição; permitem minimizar os custos de despoluição.
Pagamento por serviços ambientais: incentivo a conservação de áreas naturais, compensação de emissões por agentes produtivos, estímulo à conservação da biodiversidade, contribuição para a conservação da qualidade da água, manutenção de paisagens de interesse cênico; remuneração de comunidades indígenas e tradicionais pelo seu papel de proteger as florestas.

Desvantagens
Ecotaxas: estimulam as mudanças tecnológicas que tendem a economizar mão de obra. Repasse dos custos gerados no sistema produtivo aos consumidores, principalmente em famílias de baixa renda. Risco de socialização dos custos ambientais. Sofrem críticas por serem identificadas como venda de direitos de poluir aos ricos.
Incentivos financeiros: para não serem vulneráveis a distorções comuns aos subsídios públicos em geral, devem ser concedidos apenas em condições limitadas e bem precisas.
Licenças negociáveis de emissões: necessidade de intervenção dos poderes públicos; as externalidades podem ser entre agentes econômicos assimétricos – grande fábrica que polui e uma comunidade de milhares de pessoas.
Pagamento por serviços ambientais: monetização de diferentes formas de valor dos ativos ambientais – valor de uso, valor de existência e o valor de opção.
Práticas
Ecotaxas: recursos aplicados na área ambiental; contribuição para o conjunto das receitas fiscais, contribuindo para a redução de outras taxas ou cobranças obrigatórias, o que significa um duplo benefício. 1º: melhoria da qualidade ambiental; 2º: desoneração do trabalho como uma base do sistema tributário. Pode ter consequências sobre a competitividade e as trocas internacionais.
Exemplos
Taxas sobre emissão de poluentes: taxa sueca sobre os óxidos de nitrogênio provenientes das centrais elétricas com capacidade de 50GW/h ultrapassada; taxa alemã sobre lançamento de águas residuárias; cobrança pelo uso da água na França.
Tributação sobre uso de recursos naturais.
Incentivos fiscais para reduzir emissões e conservar recursos.
Financiamentos em condições especiais.
Criação e sustentação de mercados de produtos ambientalmente saudáveis.
Taxas sobre produtos: taxas sobre carbono e enxofre contidos nos combustíveis – países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – 34 países).
Sistemas de consignação (Sistema de depósito retorno): recipientes de cerveja e bebidas gasosas devolvidos em pontos de coleta– as toneladas de materiais que deixam de ser lançadas no meio natural assumem uma nova vida útil, seja pela reutilização, seja pela reciclagem.
Poder de compra do estado.
Taxas administrativas: taxa de estacionamento ou pedágio urbano. Procura limitar a entrada de automóveis particulares em áreas saturadas com a circulação de veículos automotores.
Licenças negociáveis de emissões: sistema norte americano no que se refere às emissões de SO2 e se inscreve no programa da luta contra as chuvas ácidas.
Pagamento por serviços ambientais: Programa de Desenvolvimento Sustentável da Produção Familiar da Amazônia – Proambiente.


Acordos voluntários

Objetivos
Por meio de acordos voluntários as organizações privadas se comprometem a realizar algum tipo de ação para melhorar seu desempenho ambiental.

Fundamentos teóricos
- São considerados complementares aos de comando e controle.
- São típicos da esfera privada e de natureza voluntária.
- Acordos voluntários individuais ou coletivos.
- Podem ser referenciados como códigos de conduta, acordos negociados, convenções.
- Mecanismo novo baseado na cooperação entre governo e o setor privado.
- Englobam quatro categorias de procedimentos:
1. Acordos negociados entre a indústria e os poderes públicos visando à proteção ambiental: possuem objetivo definido (redução da poluição), calendário de realização de ações, sanções para o não cumprimento dos acordos;
2. Acordos privados entre poluidores e vítimas da poluição: podem estabelecer a adoção de um programa de gestão ambiental, a implantação de dispositivos de despoluição e compensações financeiras;
3. Programas públicos voluntários: empresas podem aderir individualmente e aceitam o estabelecimento de normas referentes ao seu desempenho, à sua tecnologia ou à sua gestão elaboradas pelos órgãos ambientais;
4. Contratos de progresso ou compromissos unilaterais assumidos pelos poluidores: definidos pelas empresas e estabelecem os objetivos ambientais e o calendário de realizações e dão ciência aos envolvidos.
Aplicações possíveis
- Adotados em diversas áreas ambientais e em vários setores econômicos: política de resíduos sólidos e de resíduos tóxicos, as políticas agrícola e energética e para a redução dos gases de efeito estufa.
Vantagens
- Redução dos custos inerentes aos mecanismos obrigatórios, proporcionada pela adoção de abordagens voluntárias, que podem ser mais flexíveis e adaptáveis a cada caso.
- Transparência dos acordos e dos seus resultados e dos custos de transação vinculados à negociação.
- Incentivos que favorecem o respeito aos compromissos assumidos e que se apoiam em sanções para o descumprimento.
- Expectativa dos indivíduos e da coletividade com relação à qualidade ambiental.
Desvantagens
- Com a confiança excessiva na abordagem voluntária, entendendo que o mercado serve de pressão natural para estimular um comportamento ambientalmente responsável pelos empresários, há riscos de que os resultados sejam mais modestos do que os da ação de comando e controle.
- Não incentivam a inovação tecnológica e seus custos administrativos e de transação costumam ser elevados.
- Difícil avaliar a eficácia ambiental, pois na prática os acordos são bem diversificados e a forma de implementação bem variável.
- Eficácia econômica tende a ser fraca.
- São vulneráveis a problemas como: a insuficiência de controle, o comportamento oportunista do tipo free-rider, custos de transação elevados, captura da regulamentação, pouca ambição com relação aos cenários de referência.
- Passam a funcionar como um mecanismo de comando e controle indiretamente, quando uma organização é compelida a cumprir a legislação ambiental pertinente a sua atividade já que esse é um dos requisitos mandatários e a base de todo o sistema.
Pontos críticos
- Parecem não ter uma existência espontânea, já que geralmente aparecem como uma resposta face ao endurecimento dos mecanismos de comando e controle.
Práticas
- O primeiro instrumento criado foi na década de 1992, com a criação da norma British Standard – BS 7750 (Reino Unido) e que está sendo gradativamente substituída pela norma ISSO 14001. Parte do princípio de deixar para o mercado a responsabilidade de mediaras relações entre os atores envolvidos no processo de gestão ambiental. Baseia-se no princípio neoliberal (laissez-faire) de que haverá uma regulação natural dos conflitos ambientais.
Exemplos
- Produção de eletricidade: melhorias de centrais elétricas e dos sistemas de transporte e distribuição, utilização de turbinas com ciclos combinados e fomento à utilização de combustíveis com baixo teor de carbono.
- Área agrícola: práticas mais favoráveis ao meio ambiente e mudanças tecnológicas.
- Resíduos sólidos: embalagem e reciclagem de resíduos.

sábado, 21 de junho de 2014

Esquema de leitura: A primazia dos cientistas naturais na construção da agenda ambiental contemporânea, por Drummond, José Augusto.

Universidade de Brasília – UnB
Centro de Desenvolvimento Sustentável – CDS
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável
Doutorado
Professores: Marcel Bursztyn e Doris Sayago
Discente: Juliana Capra Maia
Ficha de Leitura
Texto: DRUMMOND, José Augusto. A primazia dos cientistas naturais na construção da agenda ambiental contemporânea. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Volume 21, n. 62, Outubro de 2006.

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** Objetivo do texto >>> Demonstrar que praticamente a integralidade da agenda ambiental contemporânea foi construída por cientistas filiados às Ciências Naturais ou Tecnológicas. De acordo com o autor, os cientistas sociais chegaram à discussão de forma retardatária e, por vezes, parcialmente equivocada.

** Motivação do texto >>> Constatação de que boa parte dos cientistas sociais resiste à primazia dos cientistas naturais na discussão da temática ambiental: ignoram as suas contribuições ou as criticam de forma equivocada e empobrecedora. Não é difícil encontrar cientistas sociais empenhados em rotular os pioneiros da questão ambiental como “neomalthusianos”, “insensíveis aos problemas sociais”, “naturalistas”, etc.


A “lição” mais relevante a tirar desse fato é prosaica: os cientistas sociais interessados em estudar a questão ambiental têm e continuarão a ter muito a aprender com os cientistas naturais. Pp. 05.


** Desenvolvimento Sustentável >>> “O conceito de desenvolvimento sustentável e o paradigma da sustentabilidade foram amplamente veiculados pelo documento intitulado Our common future [no Brasil, ”Nosso Futuro Comum” ou Relatório Brundtland], escrito em meados da década de 1980 pela Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, da ONU, chefiada por Gro Brundtland”. Pp.06
            -- Apesar de todas as polêmicas em torno da temática, esse documento foi amplamente aceito pela comunidade científica, pelos governos, pelas entidades intergovernamentais, pelas entidades não governamentais, pelos grupos empresariais. Motivo? Sugere um balanço entre problemas ecológicos ou biofísicos, por um lado, e problemas sociais, econômicos, éticos e culturais, de outro lado.
            -- E o que seria “Desenvolvimento Sustentável”? De acordo com o Relatório Brundtland, seria “aquele desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades de as gerações futuras atenderem às suas próprias”. Pp. 06.
            -- Elementos notáveis: capacidade de suporte ou capacidade de carga (conceitos da Biologia) + solidariedade intergeracional ou equidade (Juízo Ético, Deontológico).

No entanto, é necessário fazer uma grande ressalva. Rigorosamente, a dimensão ecológica do conceito de desenvolvimento sustentável também carece de originalidade, pois nasce de um conceito estabelecido há décadas na ciência da biologia – “capacidade de carga” (carrying capacity), ou “capacidade de suporte”. A “novidade” é a sua aplicação sistemática para o estudo de sociedades humanas, o que é fruto do trabalho de cientistas naturais interessados nas questões ambientais. Pp. 07.

-- Capacidade de Suporte e Capacidade de Carga: Quantidade de população máxima a que um ambiente natural, com recursos limitados, pode ser submetido. Conceitos, há décadas, utilizados por ecólogos e biólogos em pesquisas voltadas a descobrir quantos seres vivos desta ou daquela espécie podem ser sustentados por um ecossistema, sem que essa população provoque colapso no ecossistema.
-- Parcelas crescentes de cientistas passaram a aplicar os conceitos de capacidade de suporte e de capacidade de carga às sociedades humanas, enxergando os limites relativos ao que os homens poderiam, sem prejuízos à natureza, retirar do planeta para reproduzir sua existência.  

O relatório da Comissão Brundtland veio na esteira de pelo menos quarenta anos de preocupações ecológicas-ambientais entre cientistas naturais e de aplicação do conceito de capacidade de carga ao que hoje chamamos de questões ambientais. Quem pensou sobre essas questões, pioneiramente, foram os cientistas naturais que, trabalhando individualmente ou em grupos, redes e comissões, produziram estudos tão importantes e influentes, guardadas as especificidades de época, quanto o relatório da Comissão Brundtland, embora em geral tenham tido uma recepção mais polêmica.  
Sem que ninguém pudesse prever, esses estudos cumpriram, no entanto, a difícil tarefa de fundar ou codificar as grandes questões ambientais reconhecidas e debatidas contemporaneamente. O texto da Comissão nasceu, portanto, num território já aberto por esses pioneiros – território não apenas temático, mas também conceitual. Pp. 07.


Sustento, portanto, que o conceito de desenvolvimento sustentável é, por assim dizer, um “filho” sociológico do conceito biológico de capacidade de carga. Pp. 08.



** Cientistas sociais como retardatários na questão ambiental >>> Os textos fundadores da questão ambiental – textos apenas tardiamente viriam a influenciar cientistas sociais -- foram quase todos escritos por cientistas naturais ou da área tecnológica: biólogos, ecólogos, químicos, analistas de sistemas, físicos, etc. Esses foram os cientistas que identificaram, publicaram e trouxeram para a agenda pública temas atuais, tais como o esgotamento e a poluição dos recursos naturais, a extinção de espécies, a perda de biodiversidade, a desertificação, o efeito estufa, a destruição da camada de ozônio, a destinação inadequada dos resíduos e efluentes, entre outras.
-- E quais seriam os fundamentos da resistência dos cientistas sociais às questões ambientais? 1) Questão metodológica, segundo a qual o social se explica apenas por meio do social: as sociedades humanas seriam “imunes” aos fatores naturais (fragilidade que diversos cientistas sociais ainda carregam, mesmo quando discutem as questões ambientais); 2) Consequências nefastas do Darwinismo Social Spenceriano e das teorias racistas, influência direta da Biologia sobre as Ciências Sociais e Políticas, responsáveis por guerras e genocídios. 
Dunlap e Catton (1979), por exemplo, mostram que a disciplina da sociologia como um todo (representada principalmente, mas não unicamente, pela produção em língua inglesa, original ou traduzida) deu uma atenção “tardia” às questões que hoje chamamos de ambientais. Além de tardia, foi também limitada, pois havia ainda uma questão de fundo, metodológica ou filosófica, qual seja, a recusa implícita – e às vezes explícita – dos cientistas sociais de levar em conta fatores naturais e biofísicos como variáveis legítimas da análise sociológica. Ou seja, os sociólogos entraram na nascente era ambiental portando o que considero um sério handicap – o princípio durkheimiano de que só é possível explicar o social pelo social. Perderam, assim, a chance de ter um papel significativo na emergência dos estudos e das pesquisas sobre as questões ambientais, em que o social era definido, desafiado, limitado ou condicionado pelo natural. Pp. 08 
Dunlap e Catton sustentam também que, em meados do século XX, quando emergia a questão ambiental, os sociólogos estavam imersos num “paradigma de imunidade humana” (human exemptionalism paradigm), que se baseava na imunidade das sociedades humanas em relação às variáveis naturais. Explicar o social pelo social era nesse momento um traço mais do que cinquentenário das ciências sociais. Duas ou três gerações de sociólogos tinham sido treinadas para estudar os processos e os eventos sociais e culturais como fenômenos imunes ao alcance das variáveis naturais. Pp. 09.


“A emergência de um “novo paradigma ambiental” entre os sociólogos não decorreu de uma mudança endógena no âmbito da perspectiva e da metodologia da disciplina”. Pp. 09


** As ciências naturais e a “invenção” das grandes questões ambientais >>> Abordagem acerca de alguns dos principais temas ambientais da contemporaneidade, já adiantados por Paul B. Sears, Aldo Leopold, Rachel Carson, Paul Ehrlich, Donella Meadows, Garrett Hardin e James Loveloc.

a. Paul Bigelow Sears >>> 1891 – 1990, botânico norte-americano. Fez parte de um grande grupo de estudiosos preocupados com o fenômeno da desertificação, em escala 
Autor de “Deserts on the march”, obra editada em 1935, pelo menos vinte anos antes do início da disseminação das preocupações 
O livro foi um grande sucesso, em parte devido ao temor doméstico dos norte-americanos ante a perspectiva da ampliação dos desertos de seu país, desertos já bastante extensos. Entretanto, Sears não se restringia à desertificação nos EUA: antes, tratava de desertos de uma maneira geral, em outros continentes e de períodos da história antiga e contemporânea. Notabilizou-se por documentar como muitos povos cavaram seu próprio abismo, ao fabricarem desertos.

Narra dezenas de processos e episódios em que sociedades diversas foram algozes de si mesmas, ao praticar extrativismo, agricultura, pecuária, corte de árvores e manipulações da água que ajudaram a formar ou a ampliar desertos estéreis, incapazes de sustentar as atividades humanas. Pp. 10.

b. Aldo Leopold >>> 1887 – 1948. Norte-americano. Engenheiro florestal fundador de uma nova disciplina científica, denominada “Manejo da Vida Silvestre” (Wildlife Management). Pioneiro na restauração de ecossistemas. Funcionário do US Forest Service. Associado à Universidade de Winsconsin (onde fundou o curso de Manejo da Vida Silvestre, curso que ainda existe e que permanece na vanguarda das discussões ambientais). Ativista ambiental (ajudou a fundar a Wilderness Society, em 1924).
Autor de “Pensar como uma Montanha” (A Sand County Almanac), livro em que: 1) Relata as mudanças na natureza causadas pela sucessão das estações e pelas atividades produtivas (antrópicas) das fazendas, ao redor de sua propriedade; 2) Trata da paisagem rural – selvagem de várias regiões dos EUA; 3) Propõe a “Ética da Terra” (Land Ethic).
A Ética da Terra envolveria as relações entre seres humanos e seres não-humanos, todos integrantes de uma mesma “comunidade biótica”. Para Aldo Leopold, a Ética da Terra seria mais uma expansão do alcance da Ética na história das sociedades ocidentais. É que ao longo da história, círculos cada vez maiores de pessoas (mulheres, estrangeiros, pobres, escravos) foram progressivamente protegidos contra as arbitrariedades de seus semelhantes.
Dessa forma, de acordo com Aldo Leopold, o então nascente movimento ambientalista seria o agente propulsor da inclusão da Terra no rol dos entes eticamente protegidos.
A realização da Ética da Terra demandaria o compromisso de grupos desinteressados, não sendo suficiente a ação fiscalizatória e repressiva do Estado.

A ética da terra não poria fim ao inevitável uso humano dos componentes da natureza, mas “afirmaria o seu [da natureza] direito à existência contínua”, até mesmo no que concerne o estado natural ou intocado, em alguns casos. O autor afirmava que a conservação baseada apenas numa ética econômica ou utilitarista era insuficiente, pois deixaria de fora a maior parte da flora e da fauna (por serem “inúteis”), as terras não agricultáveis, os minérios sem uso, as paisagens “feias” e assim por diante.
A ética proposta por ele abarcaria a sociedade humana e todos os componentes da natureza numa única e abrangente “comunidade biótica”. Isso é outra maneira de dizer que a natureza e seus componentes não precisam ser úteis para os humanos para merecerem proteção ou uso cuidadoso – eles têm um valor intrínseco, independente de e irredutível à sua utilidade. Vale lembrar que esse é o núcleo conceitual de uma sofisticada e radical corrente ambientalista contemporânea, desenvolvida décadas depois, principalmente por filósofos e denominada “ecologia profunda” (deep ecology). Pp. 11 e 12.  
Pode-se dizer que Leopold era um otimista, pois via na história filosófica humana uma passagem profícua da barbárie, em que os homens se encontravam num estado hipotético de natureza, à formalização de uma ética primeiramente limitada a alguns círculos sociais e, depois, inclusiva de todos os seres humanos. Estender tal ética aos componentes da natureza seria um grande passo, mas nada tão ou mais difícil do que a humanidade já conseguira. Pp. 12.

c. Rachel Carson >>> 1907 – 1964. Bióloga norte-americana. Reconhecida pesquisadora, publicou em revistas de prestígio, lecionou em universidades renomadas, teve bolsas de pesquisa, ganhou prêmios renomados. Trabalhou como bióloga e como editora do US Fish and Wildlife Service. Autora de obras naturalistas voltadas à vida marinha.
Autora do livro Silent Spring, de 1962, apontado como marco fundador do movimento ambientalista 
Silent Spring, um livro de denúncia, causou comoção pública nos EUA e em outros países, influenciou carreiras científicas, influenciou a criação de linhas de pesquisa, influenciou leis e regulamentos que aboliram produtos modernos e de alto valor agregado do mercado (exemplo mais notável: banimento do DDT).

[...]. Carson narra as sombrias descobertas e constatações (suas e de outros cientistas naturais) a respeito das consequências diretas e indiretas, na natureza e na sociedade, do uso indiscriminado dos modernos pesticidas, herbicidas e fungicidas agrícolas (e substâncias associadas). O título refere-se [...] ao fato de que certas espécies de pássaros dos Estados Unidos, antes com populações muito numerosas, tornaram-se raras, “silenciando” as primaveras antes marcadas pelos seus cantos. Suas pesquisas mostraram que essas aves estavam sendo eliminadas pelos efeitos diretos e indiretos daquelas substâncias, em alguns casos aplicados em áreas agrícolas situadas a centenas de quilômetros dos litorais e dos estuários atlânticos nos quais a autora realizava suas pesquisas.  
Não se trata, porém, de um livro lírico sobre passarinhos, mas um relatório sério, áspero e perturbador sobre os riscos e as calamidades que a sociedade mais próspera do planeta estava introduzindo voluntária e entusiasticamente no ambiente natural do seu próprio território. Contestou, com sólida base científica, a moderna, dinâmica e lucrativa prática agrícola – propiciada por conglomerados e produtos industriais de prestígio inabalado – que criava efeitos deletérios de longo prazo sobre o ambiente natural e as sociedades humanas, uma vez que essas também eram altamente suscetíveis aos efeitos negativos dos agrotóxicos. Assuntos “desagradáveis” como câncer, mutações genéticas, lesões nervosas, intoxicações, defeitos congênitos, envenenamentos – tudo isso em seres humanos – abundam nos concisos e bem organizados parágrafos de Carson. Ela por certo abordava pássaros raros e peixes envenenados, mas estava preocupada, antes de tudo, com a saúde e o bem-estar dos humanos. 
[...]. Embora alguns cientistas sociais equivocados ainda hoje pensem que Carson se preocupava apenas com passarinhos, já em 1962 os executivos de empresas produtoras de pesticidas, o lobby dos fazendeiros modernizados e os dirigentes de alguns órgãos públicos sabiam muito bem que ela estava desafiando o seu poderio econômico. Tentaram, sem sucesso, desqualificá-la como cientista e estigmatizá-la como alarmista, mas foram derrotados com o banimento da produção e do uso nos Estados Unidos do DDT, símbolo maior da primeira geração de pesticidas sintéticos. Mesmo assim, esse produto continuou a ser fabricado e usado em outras regiões do mundo que desprezaram as constatações de Carson e de outros cientistas que, desde então, monitoram os efeitos negativos de sucessivas gerações de pesticidas sintéticos. Graças a ela, no entanto, o tema dos efeitos potencialmente perigosos de pesticidas e de muitas outras substâncias sintéticas foi inscrito permanentemente na agenda ambiental, quer nas ciências, nas políticas públicas, quer no campo do ativismo ambiental. Pp. 13.

d. Paul R. Ehrlich >>> Nascido em 1932. Ainda vivo e em atividade. Biólogo norte-americano. Ligado à Universidade de Stanford, em que atuou como professor de estudos populacionais (plantas e animais). Iniciou carreira na década de 50, pesquisando o desenvolvimento de populações de insetos resistentes a pesticidas, por via da seleção genética. Perito em populações, co-evolução, dinâmicas reprodutivas de animais e biologia da conservação. Divulgador do darwinismo e do conceito de serviços ecossistêmicos.
A partir de 1968, passou a estudar a reprodução dos seres humanos. Autor de uma obra clássica da questão ambiental: The population bomb (“A bomba populacional”). O livro foi bastante criticado e debatido. Ehrlich foi comparado a Thomas Malthus (ele e aqueles que o apoiavam foram rotulados, pejorativamente, como “neomalthusianos”).
Com “A Bomba Populacional”, Ehrlich passou a ser porta-voz e protagonista do movimento ambientalista, já que o livro nos convida à ação.

Ele deve ter sido o primeiro autor bastante difundido que transferiu explicitamente para o estudo das sociedades humanas o conceito de capacidade de carga. Aplicou esse conceito em escala planetária e chegou a conclusões alarmistas – quando não catastrofistas – de crises e mesmo de colapsos iminentes na produção de alimentos e na oferta de matérias primas em geral. 
Apesar de seu tom sombrio e alarmista (aspecto aliás muito comum em várias correntes da literatura ambientalista, até hoje) e de alguns cálculos equivocados, trata-se de um estudo do que hoje chamamos de “sustentabilidade ecológica” da espécie humana como um todo, tendo como base os recursos naturais do planeta. Pp. 14. 
Em geral, os cientistas sociais ignoraram-no ou estigmatizaram-no. Em primeiro lugar, estranhavam que um biólogo aplicasse aos humanos um método próprio para estudar animais e plantas. Este é um exemplo claro do quanto esses sociólogos estavam tomados pelo já citado “paradigma da imunidade humana” às variáveis naturais – ou seja, a idéia de que os homens seriam a única espécie cujo crescimento exponencial não teria limites nem implicações sobre a natureza. Em segundo lugar, rejeitavam a perspectiva malthusiana de Ehrlich, estabelecendo-se firmemente no campo daqueles para quem o crescimento populacional não é um problema grave, ou sequer um problema. Isso deriva de uma visão profundamente utilitarista sobre a natureza, que defende a expansão contínua da espécie humana para além de quaisquer considerações sobre a base de recursos naturais que sustentam a espécie. De fato, havia um tom malthusiano em The population bomb se pensarmos nos dados sobre a pobreza com que Ehrlich lidava. No entanto, o autor afirmou que também as populações dos países ricos tinham crescido exponencialmente, ou seja, não os “inocentava” [...]. Ehrlich focalizava a tensão que considerava mais alarmante, qual seja, a coincidência de haver cada vez mais pessoas e menos comida nos países pobres; foi por esse motivo que se deteve no estudo desses países. Fundou um movimento / organização denominado ZPG (Zero Population Growth [Crescimento Populational Zero]), incentivando campanhas para conter o crescimento populacional e estimular o planejamento familiar, tanto em países ricos como pobres. Pp. 14.

No livro The end of affluence (1974), o casal Ehrlich discute indicações da insustentabilidade do moderno modelo industrial de países ricos, enfocando sua voracidade por recursos naturais.
Nesse livro, há uma crítica ao modelo brasileiro, que combinava incremento populacional e a adoção de um modelo de crescimento econômico acelerado, baseado em grandes unidades de produção e em elevado consumo de energia (modelo adotado nos anos do “Milagre Brasileiro”, na década de 1970).
Temas, acerca do Brasil, tratados pelo autor, no livro “The End of affluence”: disparidades regionais do crescimento, concentração de renda, expansão da soja e outras monoculturas, ocupação desordenada da fronteira amazônica, inadequação dos solos amazônicos para cultivos de grande escala, escalada da construção de estradas, deslocamento de populações indígenas, posição “pró-poluição” da delegação brasileira na Conferência de Estocolmo.
Desde Ehrlich, o conceito de “capacidade de carga” foi inserido nas discussões – políticas, técnicas, ideológicas e científicas – acerca da questão ambiental.

A implicação mais ampla da reflexão de Ehrlich sobre o crescimento populacional é que a humanidade trilha um caminho insustentável, pois tende a consumir mais do que a natureza tem a seu dispor e mais do que a capacidade produtiva instalada pela sociedade humana consegue atender. Pp. 15.

O casal Ehrlich também contribuiu para incluir, na agenda ambiental, a discussão acerca da extinção de espécies e da proteção da biodiversidade, temas enfrentados no livro Extinction: the causes and consequences of the disappearance of species.
O casal participava de grupo de pesquisadores dedicados a sistematizar dados acerca do desaparecimento de espécies em escala planetária, estabelecendo correlações entre esses desparecimentos e atividades humanas, tais como desmatamento, queimadas, caça, poluição, agricultura. Esse é o tema central do livro em questão.
Além disso, no Extinction: the causes and consequences of the disappearance of species¸ o casal Ehrlich demonstra utilidades, ao homem, de espécies naturais e vegetais. Finalmente, o livro também envereda por um campo ético-filosófico, sistematizando as razões “simbólicas” contrárias à extinção de espécies animais e vegetais: compaixão, estética, fascinação e até o seu “direito intrínseco à existência”.
Aqui, Ehrlich, tal como Aldo Leopold, tangencia o que viria a ser denominado Deep Ecology ou Ecologia Profunda, uma corrente do ambientalismo contemporâneo.


e.  Dennis Meadows e Donella H. Meadows (1941 – 2001) >>> Peritos em teoria dos sistemas, informática, recursos naturais, poluição, agricultura, mineralogia, econometria, ciência política e administração. Ligados ao MIT (Massachusetts Institute of Technology). Coordenaram a elaboração de um estudo coletivo e interdisciplinar, traduzido para cerca de trinta línguas, intitulado The Limits to Growth, também conhecido como Relatório Meadows ou Relatório do Clube de Roma.
O Relatório Meadows trata do esgotamento da oferta de recursos naturais, tema constante na agenda ambiental contemporânea. Influenciou tratados internacionais, a elaboração de planos de desenvolvimento, desencadeou eventos políticos e científicos.
Por outro lado, foi criticado como “neomalthusiano” (dadas as preocupações com o crescimento populacional), determinista, catastrofista e imperialista.
Além dos cenários, o Relatório Meadows legou à ciência uma bem-sucedida e consagrada metodologia: a modelagem computadorizada de cenários baseados em análise multifatorial.
Em The limits to growth, o grupo de pesquisa do MIT discutiu cinco fatores como limitadores do crescimento econômico global: aumento da população, estagnação da produção agrícola (por causa da exaustão de solos apropriados), exaustão dos recursos naturais (principalmente petróleo e certos minérios), pressões da produção industrial crescente e poluição. [...]. Vale lembrar que, mesmo com a ausência de biólogos na equipe, continuavam em evidência temas, como crescimento populacional e “capacidade de carga” do planeta, tão caros aos biólogos. 
Meadows e equipe usaram uma modelagem computadorizada, muito sofisticada para a época, para desenvolver cenários baseados em análise multifatorial e em correlações simples e múltiplas. [...]. Os modelos absorviam e processavam, segundo os diferentes cenários programados, grandes volumes de dados sobre a disponibilidade de recursos (solos agrícolas, minérios e fontes de energia), o consumo de recursos naturais e alimentos, o crescimento populacional, as cargas de poluição lançadas nas águas e no ar etc. Todos os cenários desenvolvidos [...] indicavam fortes possibilidades de colapsos sociais, econômicos e ecológicos globais, advindos da fome, da exaustão de petróleo e de certos minérios cruciais para a vida industrial, da destruição de solos agrícolas e da contaminação do ambiente natural por substâncias tóxicas. Alguns ocorreriam dentro de poucas décadas, caso as atividades produtivas e a população continuassem a crescer no mesmo ritmo. Pp. 17.  
Por causa de sua preocupação com o crescimento populacional, o livro também foi rotulado de “neo-malthusiano” [...]. Cientistas sociais que também o criticaram ainda sucumbiam ao paradigma do “social pelo social” e reduziam a questão ambiental a mais um item das polaridades entre países ricos e pobres, mas ao menos começavam a prestar atenção à questão ambiental e aos dados necessários para aferir sua existência e mensurá-la. Pp. 17.  
Independentemente de errar em quase todas as suas previsões – risco inerente à construção de cenários –, há dois méritos relevantes que não podem ser esquecidos: (1) a idéia de que a continuidade da espécie humana precisa ser debatida no contexto das limitações biofísicas do meio natural e (2) o impulso à realização de estudos similares, de caráter global, regional ou nacional, focalizados de forma abrangente nas relações entre os estoques de recursos naturais e as atividades humanas. Ou seja, Meadows e co-autores mantiveram em pauta o conceito de “capacidade de carga” como instrumento legítimo de pesquisa sobre problemas sociais e econômicos. Esses dois preceitos estão na linhagem ascendente direta do conceito de desenvolvimento sustentável. Pp. 18.

f. Garret James Hardin >>> (1915 – 2003). Norte-americano, formado em zoologia e com Ph.D. em microbiologia. Perito em dinâmica de populações – humanas ou não. Autor do artigo “The tragedy of the commons”, publicado originalmente em 1968 na revista Science. Autor de outros 349 artigos e 27 livros. Fez carreira na Universidade da Califórnia, onde tornou-se professor emérito de ecologia humana. Era engajado em organizações e causas sociais, como a legalização do aborto, a Zero Population Growth (fundada por Ehrlich) e o combate à imigração ilegal nos Estados Unidos.
De acordo com o autor, no uso de recursos naturais comuns, os atores tendem a priorizar seus interesses individuais egoísticos em detrimento dos interesses coletivos, caso não haja regras eficazes de acesso e uso.
Segundo Hardin, o acesso não-regulamentado a uma área comum ou a um estoque de recursos naturais tende a facilitar um uso irracional e, eventualmente, gerar seu esgotamento, com prejuízo para todos, independentemente da intenção de cada usuário, que apenas procura maximizar seu ganho individual. Chamou isso de “tragédia dos recursos de propriedade comum”. Pp. 18.
O exemplo que Hardin usou no artigo tinha por base o conceito, caro à Biologia, de “capacidade de suporte”: imagine-se uma situação em que uma comunidade camponesa hipotética mantenha uma área comum destinada às pastagens, área essa que acaba sendo sobre-explorada pelo acúmulo de decisões individuais maximizantes – o aumento de animais no pasto para além do ecologicamente possível –, levando à sua inevitável degradação, em prejuízo de todos.
No exemplo de Hardin, a soma das racionalidades individuais, pulverizadas e desregradas não leva à felicidade de todos, ao bem comum (como supunha Adam Smith, fiel das benesses da “Mão Invisível do Mercado”), mas à desgraça de todos, isto é, ao mal comum.
Como se preocupava com o crescimento populacional e com a excessiva pressão do homem sobre os recursos naturais, Hardin também foi rotulado, pejorativamente, como “neomalthusiano”.
Além disso, como criticava os mecanismos estatais de controle dos recursos e simpatizava com algumas soluções de mercado, Hardin foi considerado um defensor da privatização desregrada dos recursos naturais.
[...]. Hardin era cético quanto à eficácia do altruísmo para além de pequenos grupos sociais. Sustentava que este se diluiria em meio a rivalidades e egoísmos étnicos e nacionais das grandes e complexas sociedades modernas. Pp. 19. 
[...]. Talvez devamos a Hardin a importante inovação conceitual de abordar de maneira sociopolítica os recursos naturais como bens públicos, isto é, como bens cuja disponibilidade depende de ação coletiva e de regras construídas por grupos sociais e pelo poder público. O resultado mais pragmático dessa idéia talvez tenha sido apresentar a necessidade da criação de regras de acesso e de uso dos estoques de recursos naturais de maneira teórica e conceitual, o que hoje é um consenso. Pp. 19

g. James E. Lovelock >>> Inglês, nascido em 1919 e ainda em atividade. Formado em Química e pós-graduado em medicina e biofísica. Ligado à Universidade de Oxford e a outras universidades, tais como Yale e Harvard.
Inventou, em 1957, o ECS (Electron Capture Detector), aparelho que permite analisar a composição química de misturas gasosas. O ECS ajudou na análise de muitos aspectos da atmosfera terrestre e também de outros planetas. Foi usado para identificar sinais de vida em outros planetas, quando Lovelock, a serviço da NASA, na década de 1960, ajudou a conceber a sonda Voyager.
Também descobriu o destino dos gases CFC, o que acabou desencadeando a “Guerra do Ozônio” (isto é, um longo debate acerca da destruição da camada de ozônio pela ação dos CFC liberados voluntariamente na atmosfera) e, em consequência, diversas pesquisas acerca da atmosfera e das mudanças nos regimes climáticos da Terra.
Lovelock participou dos primórdios da discussão sobre o “efeito estufa” e é, atualmente, um dos mais influentes cientistas e divulgadores das questões ambientais.
Autor dos livros Gaia: a new look at life on earth (1979) e The ages of gaia (1988).
Lovelock propõe a “Teoria de Gaia”, hipótese segundo a qual o Planeta Terra seria um grande organismo vivo (dentro do qual a humanidade é um acontecimento tardio e pouco relevante) e que “agiria” para permanecer vivo.
Paradoxo: dada a escala invocada por Lovelock na Teoria de Gaia, o ativismo ambientalista é completamente irrelevante para manter a vida na Terra. É que a base da vida na Terra são os micro-organismos, seres que o homem não conseguiria destruir ainda que desejasse. Dessa forma, a Teoria de Gaia apequena o papel do homem diante da Natureza.
[...]. A atmosfera, os oceanos, os continentes e todas as formas de vida formam, segundo Lovelock, um sistema complexo e ativo, capaz de agir e reagir a alterações (“naturais” ou induzidas pelos homens) e de restabelecer as condições necessárias para o prosseguimento e a evolução da própria vida. 
Ele afirma que o princípio básico da “teoria de Gaia” lhe ocorreu quando se deu conta do caráter quimicamente “inerte” ou “entrópico” das atmosferas de outros planetas. Em contraste, a atmosfera da Terra, sua temperatura e a salinidade dos oceanos, entre outros aspectos, apresentam conteúdos dinâmicos e “altamente improváveis”, mas ainda assim relativamente equilibrados e duráveis, revelando-se não-entrópicos. A explicação disso, para ele, é que esses compartimentos do planeta são, por assim dizer, “manipulados” pela vida para reproduzir as condições favoráveis a ela. Pp. 20. 
Lovelock entende que a humanidade gera, sim, ameaças à vida, mas sobretudo em suas manifestações “macro”. Podemos extinguir espécies macro (mesmo não querendo fazê-lo); no entanto, somos incapazes de extinguir os microorganismos (mesmo que quiséssemos); estes são, na visão do autor, a base dos grandes processos mantenedores da vida. Assim, Lovelock também se preocupa com a sustentabilidade da vida, mas o faz a partir de um paradigma biogeofísico, no interior do qual a aventura humana é uma parte ínfima de processos avassaladoramente maiores e mais complexos. Pp. 20. 
[...]. O máximo que Lovelock considera que os homens podem fazer para ajudar a perpetuar a vida (e conservar o ambiente natural) é interromper atividades altamente destrutivas. Isso não significa que ele “libera” a humanidade para destruições “menores”; ao contrário, ele participa, como cientista e cidadão, de iniciativas favoráveis à conservação do meio ambiente. No entanto, duvida da eficácia de muitas iniciativas de grande escala anunciadas como “salvadoras” do planeta. 
Por conta disso, muitos cientistas sociais e ambientalistas “sociais” hesitam em avaliar Lovelock. Se, de um lado, aprendem com a “teoria de Gaia” – apreciando especialmente sua visão “organicista” que enfatiza o equilíbrio dos grandes processos vitais e a capacidade da vida de lutar pela sua própria continuidade; de outro, preferem agir ou apoiar ações e atitudes que Lovelock considera fúteis, criticando- o por estimular o grande público a assumir uma atitude contemplativa em relação a atividades notoriamente deletérias à vida. Pp. 21.


** Considerações Finais >>>

  • Pioneirismo temático das Ciências Naturais: A base das principais preocupações ambientais contemporâneas está no trabalho árduo de cientistas da natureza. Cientistas sociais e políticos têm muito a aprender com essa literatura.
  • Herança metodológica legada pelas Ciências Naturais: O conceito de “sustentabilidade”, adotado pela maior parte dos cientistas sociais que se dedicam às questões ambientais, está intrinsecamente relacionado ao seu ancestral biológico, o conceito de “capacidade de carga”.
  • Conforme Relatório Brundtland, além da “capacidade de carga”, a “Sustentabilidade” envolve “Equidade social e econômica” e “solidariedade intergeracional”. Veja-se, portanto, que o núcleo científico do conceito de “Sustentabilidade” ainda é oriundo da Biologia. “Equidade social e econômica” e “solidariedade intergeracional” consistem valores, juízos de dever ser.
  • É importante que os cientistas sociais compreendam o seu papel e se apropriem do legado deixado pelos pioneiros nos estudos de questões ambientais. A interdisciplinaridade exigida para a análise científica da questão ambiental ultrapassa os diálogos entre disciplinas irmãs, tais como Sociologia, Antropologia e Ciência Política. 

Artigo publicado em periódico. De naturalista a militante: a trajetória de Rachel Carson

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