segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Esquema de Leitura: Cidadania no Brasil, José Murilo de Carvalho

Centro Universitário de Brasília - Uniceub
Pós-Graduação Lato Sensu em Direito Urbanístico e Regulação Ambiental
Professor Carlos Divino Rodrigues
Aluna: Juliana Capra Maia
Esquema de Leitura:
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. Pp. 17/25; 45/83; 110/125 e 206/208. 
 
 
 
 
O PESO DO PASSADO (1500 - 1822). Pp. 17 a 25
  • Antecedentes históricos >>> Desde a Independência do Brasil, em 1822 até o final da Primeira República, em 1930. O autor entende que, sob o ponto de vista do progresso da cidadania, o movimento que pôs fim à Primeira República, em 1930, foi muito mais relevante que a abolição da escravatura (mais formal que material) ou que a proclamação da República.
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  • O Brasil herdou de Portugal uma tradição cívica pouco encorajadora.
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  • Em três séculos de colonização, os portugueses construíram "um enorme país dotado de unidade territorial, linguística, cultura e religiosa. Mas tinham também deixado uma população analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia monocultora e latifundiária, um Estado absolutista.". Pp. 18 
 

"À época da independência, não havia cidadãos brasileiros, nem pátria brasileira". Pp. 18 


  • Colonização do Brasil >>>
a) Conquista de povos seminômades por europeus de tecnologia muito mais avançada, o que gerou a dominação e o extermínio de milhões de indígenas (guerra, doença e escravidão).
b) Teve conotação comercial. Empreendimento do governo português em aliança com particulares.  
c) Latifúndio monocultor e exportador de base escravista >>> Atividade que viabilizou a colonização do Brasil por Portugal. A produção de cana de açúcar (e mais tarde, a de tabaco) exigia grandes capitais e muita mão-de-obra, o que fomentou enorme desigualdade social e a escravização dos negros africanos. Formação de núcleos populacionais ao longo da costa brasileira, os quais viabilizaram a empresa colonial até o início do Ciclo do Ouro. Pp 18.
d) Mineração >>> Exigia menor volume de capital e de mão-de-obra. Atividade volátil e cheia de incertezas. Favorecimento do ambiente urbano, que contribuía para afrouxar os controles sociais, inclusive sobre a população escrava. Maior mobilidade social e, por outro lado, maior controle da Metrópole sobre a Colônia >>> Contexto propício a rebeliões. Pp. 19.

e) Gado >>>  Desenvolveu-se no interior do país como atividade subsidiária da grande propriedade agrícola e, depois, da produção aurífera. Menos concentrada que o latifúndio, menos dependente de grandes contingentes de mão-de-obra e mais difícil de ser fiscalizada ou regulada pela Metrópole. Isolava a população em relação ao mundo da política, motivo pelo qual o poder privado exercia domínio de forma inconteste. Pp. 19. 
 
  • Miscigenação >>> Imperativo da colonização portuguesa no Brasil. Portugal dispunha de apenas 1 milhão de habitantes, número insuficiente para povoar todo o território brasileiro. Não havia mulheres para acompanhar os homens. Assim, miscigenar era uma necessidade individual e política. Legitimação do estupro de mulheres indígenas e negras.
 
  • Escravidão >>> De todos, o fator mais negativo para a cidadania.  
a) Os escravos começaram a ser importados na segunda metade do século XVI. Essa importação de pessoas continuou ininterrupta até 1850. Até 1822 foram introduzidos cerca de 3 milhões de escravos no Brasil. Na época da independência, numa população de cerca de 5 milhões, havia mais de 1 milhão de escravos. 
b) Embora estivessem concentrados nas áreas de grande agricultura exportadora e de mineração, havia escravos em todas as atividades, inclusive nas atividades urbanas. Toda pessoa com algum recurso possuía um ou mais escravos. "O Estado, os funcionários públicos, as ordens religiosas, os padres, todos eram proprietários de escravos. Era tão grande a força da escravidão que os próprios libertos, uma vez livres, adquiriam escravos". Pp. 20.
 
 
"A escravidão penetrava em todas as classes, em todos os lugares, em todos os desvãos da sociedade: a sociedade colonial era escravista de alto a baixo". Pp. 20.
 
 
  • Colonização e cidadania >>> Os imperativos da empresa colonial portuguesa no Brasil (escravidão e latifúndio, particularmente) não foram favoráveis ao desenvolvimento da cidadania, isto é, do reconhecimento público dos direitos civis, políticos e sociais.  
     Escravidão e grande propriedade não constituíam ambiente favorável à formação de futuros cidadãos. Os escravos não eram cidadãos, não tinham os direitos civis básicos à integridade física (podiam ser espancados), à liberdade e, em casos extremos, à própria vida, já que a lei os considerava propriedade do senhor, equiparando-os a animais. Entre escravos e senhores existia uma população legalmente livre, mas a que faltavam quase todas as condições para o exercício dos direitos civis, sobretudo a educação. [...]
 
     Não se pode dizer que o senhores fossem cidadãos. Eram, sem dúvida, livres, votavam e eram votados nas eleições municipais. Eram os "homens bons" do período colonial. Faltava-lhes, no entanto, o próprio sentido da cidadania, a noção da igualdade de todos perante a lei. Eram simples potentados que absorviam parte das funções do Estado, sobretudo as funções judiciárias. Em suas mãos, a justiça [...] tornava-se simples instrumento do poder pessoal. O poder do governo terminava na porteira das grandes fazendas. Pp. 21. 
 
  • Não existia um poder público de fato, que garantisse os direitos civis e a igualdade de todos perante a lei >>> A metrópole aliava-se aos "homens bons" para manter o controle sobre a enorme colônia. Confusão (conveniente para ambos os lados) entre o poder do Estado e o poder privado dos grandes proprietários. Exemplos: a) os impostos eram arrecadados por particulares; b) os registros públicos (nascimentos, casamentos, óbitos) eram de responsabilidade da Igreja Católica; c) Os Capitães-Mores das províncias eram escolhidos pelos fazendeiros e, após, investidos em seu poder pelo Rei. 
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  • Educação dos brasileiros >>> Menosprezada e até mesmo proibida pela Coroa Portuguesa. Em 1872, apenas 16% da população brasileira era alfabetizada. A Igreja Católica, por seu turno, não incentivava a leitura da Bíblia, de modo que sequer havia motivação religiosa para a educação básica. A Metrópole proibiu a instalação de escolas superiores no Brasil. Quem desejasse - e pudesse - deveria ir para as universidades portuguesas (Coimbra, em especial). 
     [...] Não havia república no Brasil, isto é, não havia sociedade política; não havia "repúblicos", isto é, não havia cidadãos. Os direitos civis beneficiavam a poucos, os direitos políticos a pouquíssimos, dos direitos sociais ainda não se falava, pois a assistência social estava a cargo da Igreja e de particulares. 
     Chegou-se ao fim do período colonial com a grande maioria da população excluída dos direitos civis e políticos e sem a existência de um sentido de nacionalidade. No máximo, havia alguns centros urbanos dotados de uma população politicamente mais aguerrida e algum sentimento de identidade regional. Pp.24 e 25.
 
 
DIREITOS CIVIS SÓ NA LEI - Pp. 45 a 64
 
Escravidão
  • Sobre a abolição da Escravidão >>>
a) A escravidão estava tão enraizada na sociedade brasileira que só foi seriamente questionada depois da Guerra do Paraguai.  
b) A Inglaterra exigiu, como condição para o reconhecimento da Independência do Brasil, a proibição do tráfico de escravos. Um Tratado foi ratificado em 1827. Em 1831, votou-se uma lei que considerava o tráfico como pirataria. A norma, entretanto, não teve efeito prático imediato. Às vésperas da edição da norma, as importações aumentaram substancialmente, o que permitiu a redução das importações nos anos seguintes. Em 1850, a Inglaterra pressionou o Brasil pela renovação do Tratado de 1827 por todos os meios, inclusive a violência militar. A Marinha Inglesa afundou, em águas territoriais brasileiras, navios suspeitos de transportar escravos. Só então o Estado interrompeu o tráfico de maneira efetiva.
c) Após a abolição do tráfico de escravos, só se falou novamente no assunto ao final da Guerra do Paraguai. Durante a guerra, a escravidão era motivo de grande constrangimento para o governo brasileiro, que recebia críticas de aliados e de oponentes. Além disso, a escravidão era uma ameaça à segurança nacional. 
d) 1871. O Governo chefiado pelo Visconde do Rio Branco conseguiu fazer aprovar, com apoio da imprensa e grande resistência dos proprietários de escravos, a Lei do Ventre Livre. Tal norma jurídica libertava os filhos de escravos que nascessem daí para frente. Entretanto, essa lei permitia que os proprietários de escravos se beneficiassem do trabalho dos "ingênuos", gratuitamente, até que completassem 21 anos de idade. 
e) 1884. Início das discussões acerca da abolição da escravatura no Parlamento. Surgimento de um movimento popular abolicionista.
f) 1888 >>> Abolição da Escravatura, por meio da Lei Áurea. O Brasil foi o último país de tradição cristã e ocidental a libertar os escravos (em Cuba, a abolição levada a efeito pela Espanha ocorrera em 1887). Observe-se que o contingente de escravos em 1888 era de 723 mil ou 5% da população do país. Quando da Independência, em 1822, esse contingente alcançava 30% de toda a população brasileira. 
 
  • Escravidão no Brasil versus Escravidão nos Estados Unidos da América >>>  Os EUA, às vésperas da Guerra Civil, possuíam mais que o dobro dos escravos existentes no Brasil. Não obstante, lá a escravidão limitava-se aos Estados do Sul, especialmente aos produtores de algodão. O resto do país não tinha escravos. A vigência da escravidão limitava-se a uma poligonal geográfica. Um escravo que fugisse do Sul para o Norte deixava de ser escravo. Aqui, entretanto, a escravidão era um instituto observado em todo o território brasileiro, por todas as classes sociais e que se imiscuía nos mais diversos aspectos da vida: campo, cidades, residências, comércios. Nos quilombos havia escravos. Libertos possuíam escravos. Em alguns casos, escravos possuíam escravos.   
   Acrescente-se a isto o fato de que a posse de escravos era muito difundida. Havia propriedades com grandes plantéis, mas havia também muitos proprietários de poucos escravos. Mesmo em áreas de maior concentração de escravos, como Minas Gerais, a média de escravos por proprietário era de três ou quatro. Nas cidades, muitas pessoas possuíam apenas um escravo, que alugavam como fonte de renda. Em geral, eram pessoas pobres, viúvas, que tinham no escravo alugado seu único sustento. O aspecto mais contundente da difusão da propriedade escrava revela-se no fato de que muitos libertos possuíam escravos. Testamentos examinados por Kátia Mattoso mostram que 78% dos libertos da Bahia possuíam escravos. Na Bahia, em Minas Gerais e em outras províncias, dava-se até mesmo o fenômeno extraordinário de escravos possuírem escravos. De acordo com o depoimento de um escravo brasileiro que fugiu para os Estados Unidos, no Brasil "as pessoas de cor, tão logo tivessem algum poder, escravizariam seus companheiros, da mesma forma que o homem branco".
     Esses dados são perturbadores. Significam que os valores da escravidão eram aceitos por quase toda a sociedade. Mesmo os escravos, embora lutassem pela própria liberdade, embora repudiassem sua escravidão, uma vez libertos admitiam escravizar os outros. Que os senhores achassem normal ou necessária a escravidão, pode entender-se. Que libertos o fizessem, é matéria para reflexão. Tudo indica que os valores da liberdade individual , base dos direitos civis, tão caros à modernidade européia e aos fundadores da América do Norte, não tinham grande peso no Brasil. Pp. 48/48
 
  • Tradição Cultural Ibérica >>> Os argumentos utilizados em prol da abolição da escravatura no Brasil estavam ligados à Razão Nacional. A escravidão seria um obstáculo à formação de uma verdadeira nação, pois mantinha parcela da população subjugada a outra parcela, como inimigas latentes. A escravidão impedia a unificação nacional e a formação de forças armadas poderosas. O argumento da liberdade individual (Razão Individual), essencial ao abolicionismo norte-americano, era utilizado de maneira periférica.  
     O argumento da liberdade individual como direito inalienável era usado com pouca ênfase, não tinha a força que lhe era característica na tradição anglo-saxônica. Não favorecia a interpretação católica da Bíblia, nem a preocupação da elite com o Estado nacional. Vemos aí a presença de uma tradição cultural distinta, que poderíamos chamar de ibérica, alheia ao iluminismo libertário, à ênfase nos direitos naturais, à liberdade individual. Essa tradição insistia nos aspectos comunitários da vida religiosa e política, insistia na supremacia do todo sobre as partes, da cooperação sobre a competição e o conflito, da hierarquia sobre a igualdade.
     Havia nela características positivas, como a visão comunitária da vida. Mas a influência do Estado absolutista, em Portugal, acrescida da influência da escravidão, no Brasil, deturpou-a. Não podendo haver comunidade de cidadãos em Estado absolutista, nem comunidade humana em plantação escravista, o que restava da tradição comunitária eram apelos, quase sempre ignorados, em favor de um tratamento benevolente dos súditos e dos escravos. O melhor que se podia obter nessas circunstâncias era o paternalismo do governo e dos senhores. O paternalismo podia minorar sofrimentos individuais mas não podia construir uma autêntica comunidade e muito menos uma cidadania ativa. Pp. 51.  

  • Tratamento dispensado aos libertos >>> Nos Estados Unidos houve um esforço para educar os ex-escravos. Foram construídas escolas para libertos, inclusive uma universidade. Foram, também, distribuídas terras aos libertos e incentivado o seu alistamento eleitoral. Mesmo que muitas dessas conquistas viessem a ser perdidas ao final da intervenção militar nos Estados do Sul, sua semente já havia sido lançada. No Brasil, por outro lado, não houve política educacional, distribuição de terras ou de empregos. Dezenas de anos após a abolição, descendentes de escravos ainda viviam nas fazendas uma vida pouco melhor que a de seus antepassados escravos. Outros dirigiram-se para as cidades, onde engrossavam as fileiras de desempregados ou de subempregados >>> Como consequência, a população negra brasileira ainda ocupa posição inferior em todos os indicadores de qualidade de vida. Pp. 51/52. 
      As consequências da escravidão não atingiram apenas os negros. Do ponto de vista que aqui nos interessa -- a formação do cidadão --, a escravidão afetou tanto o escravo como o senhor. Se o escravo não desenvolvia consciência dos seus direitos civis, o senhor tampouco o fazia. O senhor não admitia os direitos dos escravos e exigia privilégios para si próprio. Se um estava abaixo da lei, o outro se considerava acima. A libertação dos escravos não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na prática. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogância de poucos correspondem o desfavorecimento e a humilhação de muitos. Pp. 53.  
 

A grande propriedade
  • A grande propriedade rural também consistia um grande obstáculo à expansão da cidadania, herdado da Colônia. 
  • Ao contrário da escravidão (legal), os latifúndios ainda são uma realidade no Brasil. O latifundiário, sobretudo nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, ainda se comportam como se estivessem acima da lei.
  • Nordeste >>> Ainda hoje possui oligarquias mais sólidas, tanto na região do açúcar quanto na região do gado. Mas o Nordeste não era a única região a possuir coronéis. São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, possuíam coronéis fortemente articulados aos governos estaduais e federal. Tal circunstância, inclusive, permitiu a alternância do poder central brasileiro entre representantes de um e de outro Estado ("República do Café com Leite").
 
"Os coronéis baianos formavam pequenos Estados dentre do Estado. Em suas fazendas, e nas de seus iguais em outros Estados, o braço do governo não entrava". Pp. 55.
 
  • A influência dos latifundiários era ainda mais forte até a 1ª República. Isso porque, até 1930, aproximadamente 84% da população brasileira vivia no campo. 70¨% dos brasileiros se ocupavam de atividades agrícolas >>> Economia agroexportadora (café, açúcar e algodão).
  • O poder dos coronéis era menor na periferia das economias agroexportadoras e nas áreas de pequena propriedade. Nessas regiões, havia espaço para revoltas populares. Nas áreas fortemente controladas por coronéis, só havia espaço para guerras entre coronéis. 
     O coronelismo não era apenas um obstáculo ao livre exercício dos direitos políticos. Ou melhor, ele impedia a participação política porque antes negava os direitos civis. Nas fazendas, imperava a lei do coronel, criada por ele, executada por ele. Seus trabalhadores e dependentes não eram cidadãos do Estado Brasileiro, eram súditos dele. Quando o Estado se aproximava, ele o fazia dentro do acordo coronelista, pelo qual o coronel dava seu apoio político ao governador em troca da indicação de autoridades, como o delegado de polícia, o juiz, o coletor de impostos, o agente do correio, a professora primária. Graças ao controle desses cargos, o coronel podia premiar os aliados, controlar sua mão-de-obra e fugir dos impostos. Fruto dessa situação eram as figuras do "juiz nosso" e do "delegado nosso", expressões de uma justiça e de uma polícia postas a serviço do poder privado. Pp. 56
 
  • Diante desse quadro, não havia qualquer espaço para reconhecimento e exercício dos direitos civis. Ir, vir e permanecer; inviolabilidade do lar; incolumidade física e direito à honra, entre outros,  ficavam completamente à mercê dos caprichos do Coronel. Dessa forma, não podem ser considerados liberdades públicas. 
     [...]. A lei, que devia ser a garantia da igualdade de todos, acima do arbítrio do governo e do poder privado, algo a ser valorizado, respeitado, mesmo venerado, tornava-se apenas um instrumento de castigo, arma contra os inimigos, algo a ser usado em benefício próprio. Não havia justiça, não havia poder verdadeiramente público, não havia cidadãos civis. Nessas circunstâncias, não poderia haver cidadãos políticos. Mesmo que lhes fosse permitido votar, eles não teriam as condições necessárias para o exercício independente do direito político. Pp. 57.
 
 
A cidadania operária
  • O surgimento de uma classe operária urbana (em contraposição aos escravos e dependentes de coronéis no meio rural) deveria significar a possibilidade de cidadãos mais ativos.
  • O movimento operário auxiliou no avanço dos direitos civis.
  • Na década de 1920 a urbanização ainda ocorrida lentamente. Rio de Janeiro e São Paulo eram as maiores cidades do país. No Rio de Janeiro, a industrialização era mais antiga e o operariado mais nacional (exceto os portugueses, grupo estrangeiro mais representativo de então). Em São Paulo, a grande maioria dos operários era composta de imigrantes europeus (predominantemente italianos).
     Sob o ponto de vista da cidadania, o movimento operário significou avanço inegável, sobretudo no que se refere aos direitos civis. O movimento lutava por direitos básicos, como o de organizar-se, de manifestar-se, de escolher o trabalho, de fazer greve. Os operários lutaram também por uma legislação trabalhista que regulasse o horário de trabalho, o descanso semanal, as férias, e  por direitos sociais como o seguro de acidentes e aposentadoria. No que se refere aos direitos políticos, deu-se algo contraditório. Os setores operários menos agressivos, mais próximos do governo, chamados na época de "amarelos" eram os que mais votavam, embora o fizessem dentro de um espírito clientelista. Os setores mais radicais, os anarquistas, seguindo a orientação clássica dessa corrente de pensamento, rejeitavam qualquer relação com o Estado e com a política, rejeitavam os partidos, o Congresso e até mesmo a idéia de pátria. O Estado, para eles, não passava de um servidor da classe capitalista, o mesmo se dando com os partidos, as eleições e a própria pátria [...].
     Imprensados entre "amarelos" e anarquistas achavam-se os socialistas, que julgavam poder fazer avançar os interesses da classe também através da luta política, isto é, da conquista e do exercício dos direitos políticos. Sintomaticamente, os socialistas foram os que menor êxito tiveram. Pp. 60.

 
"Predominaram, de um lado, a total rejeição do Estado proposta pelos anarquistas; de outro, a estreita cooperação defendida pelos 'amarelos'. Em nenhum dos casos se forjava a cidadania política". Pp. 61

  • Posições políticas >>>
A) "Amarelos" anuíam com o Estado e com os empregadores (empregados do Estado, em geral).
B) "Anarquistas" (europeus, em geral) negavam todo e qualquer diálogo e se viam em permanente embate com os empregadores e com o Estado. O nascimento do PCB, filiado à 3ª Internacional, enfraqueceu os anarquistas.
C) "Socialistas" pregavam a necessidade de atuação política para a progressiva conquista de direitos.
 
  • Repressão contra o movimento operário >>>
A) Leis de expulsão de estrangeiros anarquistas;
B) Repressão violenta, por meio da polícia. "A questão social era questão de polícia".  


Direitos Sociais
  • Até 1930, pouco se falava em legislação trabalhista e previdenciária. A assistência social ficava a cargo de instituições religiosas e de associações de auxílio mútuo.
  • A Constituição Republicana de 1891 representou retrocesso nos direitos sociais. Ela retirou do Estado a obrigação de fornecer educação primária e proibia o Governo Federal de intervir na regulamentação do trabalho. Tal interferência era considerada violação da liberdade do exercício profissional (!)
  • A medida mais relevante até 1930 foi o reconhecimento dos sindicatos, rurais (1903) e urbanos (1907), como legítimos representantes dos empregados.
  • Em 1926 a Constituição Republicana foi alterada. A partir de então, o Governo Federal poderia intervir nas relações de trabalho. Nada foi feito, contudo, até 1930.
  • Em 1919, após o ingresso do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma lei estabeleceu a responsabilidade dos patrões pelos acidentes de trabalho. Os pedidos de indenização deviam, entretanto, tramitar na justiça comum.
  • 1923 >>> Direito de Férias. "Lei para inglês ver".
  • 1923 >>> Criação da Caixa de Aposentadoria e Pensão para os Ferroviários. Primeira lei eficaz de assistência social. Gérmen do sistema previdenciário.
  • 1926 >>> Criação de Instituto de Previdência para os Funcionários da União.
  • Desde 1923 até 1930, o sistema de Caixas expandiu-se para outras empresas e categorias profissionais urbanas. Ao final da 1ª República havia pelo menos 47 Caixas, uns 8 mil contribuintes e cerca de 7 mil pensionistas.
  • No meio rural, a assistência social ficava a cargo dos Coronéis em uma clara política clientelista.
      As poucas medidas tomadas restringiam-se ao meio urbano. No campo, a pequena assistência social que existia era exercida pelos coronéis. Assim como controlavam a justiça e a polícia, os grandes proprietários também constituíam o único recurso dos trabalhadores quando se tratava de comprar remédios, de chamar um médico, de ser levado a um hospital, de ser enterrado. A dominação exercida pelos coronéis incluía esses aspectos paternalistas que lhe davam alguma legitimidade. Por mais desigual que fosse a relação entre coronel e trabalhador, existia um mínimo de reciprocidade. Em troca do trabalho e da lealdade, o trabalhador recebia proteção contra a polícia e assistência, em momentos de necessidade. Havia um entendimento implícito a respeito dessas obrigações mútuas. Esse lado das relações mascarava a exploração do trabalhador e ajuda a explicar a durabilidade do poder dos coronéis. Pp. 64.
 

 

CIDADÃOS EM NEGATIVO - Pp. 64 a 83.
  • Louis Couty, 1881: "O Brasil não tem Povo". Não havia massas de homens livres politicamente organizados que, sabendo votar e ser votados, pudessem impor seus desejos aos governantes. Deputado Gilberto Amado, 1925. Repete a análise do biólogo francês, atualizando os dados.
  • Em geral, essa análise é correta. Entretanto, não se podem ignorar os gérmens da a cidadania ativa, detectáveis em movimentos políticos isolados, especialmente:
a) Movimento abolicionista >>> Movimento nacional, predominantemente urbano, ganhou força a partir de 1887. Ponto fraco: acabou com a abolição.  
b) Tenentismo >>> Jovens militares do Exército, a partir de 1922, atacavam oligarquias políticas estaduais. Ponto fraco: ausência de envolvimento popular, mesmo durante a marcha por milhares de quilômetros no interior do Brasil. 
 
  • Outras manifestações de civismo ou de interesse pela política:

a) Apoio à Independência do Brasil, da parte de populares do Rio de Janeiro. 
b) 8 mil assinaturas em manifesto contra  o regresso de D. Pedro I a Portugal.
c) Levante no Campo de Sant'Ana, que forçou D. Pedro I a renunciar em favor de seu filho.  
d) Rebeliões durante o período das Regências >>> Não tinham muita clareza de idéias, revindicações e programas. Pretendiam combater o regime colonial, os portugueses, os brancos, os ricos. Pretendiam combater a laicização do Estado e os ataques ao catolicismo:

     >>> Revolta dos Cabanos, 1832. Fronteira das províncias de Pernambuco e Alagoas. Os revoltosos eram pequenos proprietários, índios, camponeses e escravos. Defendiam a Igreja Católica e queriam o retorno de D. Pedro I ao Brasil.
     >>> Balaiada, 1838. Maranhão, próximo à divisa com o Piauí. Reuniram 11 mil homens, entre escravos, libertos, vaqueiros. 
     >>> Cabanagem, 1835 a 1840, Pará. Índios, negros e mestiços. Tomaram Belém. Grande parte da população branca (comerciantes, proprietários brasileiros e portugueses e o presidente do Estado) refugiou-se em navios de guerra estrangeiros. Os rebeldes declararam o Pará independente. Deixou aproximadamente 30 mil mortos, o que correspondia a 1/5 da população da província.    
     >>> Revolta dos Malês, Salvador, 1835. Reclamava o direito civil à liberdade. Foi abortada e, devido a denúncias, duramente reprimida.    
e) Revoltas ao longo do Segundo Reinado >>> Ganharam o formato de reações às reformas introduzidas pelo Governo. Revolta contra o registro civil de nascimentos e óbitos; Revolta contra o recrutamento militar de 1874; Revolta contra a introdução do sistema decimal de pesos e medidas em 1872 ("Quebra-quilos"); Revolta contra o aumento das passagens do transporte urbano.
f) Revoltas ao longo da Primeira República >>> Revolta de Canudos e do Contestado. Revolta da Vacina (1904, com 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, dos quais 461 foram deportados para o norte do Brasil).             
      Em todas essas revoltas populares que se deram a partir do início do Segundo Reinado, verifica-se que, apesar de não participar da política oficial, de não votar ou de não ter consciência clara do sentido do voto, a população tinha alguma noção sobre direitos dos cidadãos e deveres do Estado. O Estado era aceito por esses cidadãos, desde que não violasse um pacto implícito de não interferir em sua vida privada, de não desrespeitar seus valores, sobretudo religiosos. Tais pessoas não podiam ser consideradas politicamente apáticas [...]. Eram, é verdade, movimentos reativos e não propositivos. Reagia-se a medidas racionalizadoras ou secularizadoras do governo. Mas havia nesses rebeldes um esboço de cidadão, mesmo que em negativo. Pp. 75
 
 
O SENTIMENTO NACIONAL
  • Antes da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, não havia pátria brasileira ou, tampouco, sentimento de nação. Havia tão-somente um arquipélago de capitanias sem unidade político-administrativa ou econômica.
 
"A colônia portuguesa estava preparada para o mesmo destino da colônia espanhola: fragmentar-se em vários países distintos". Pp. 76.

  • Na colônia, "Brasil" era apenas a coleção de várias províncias unidas por mera continuidade geográfica.
  • Patriotismo provincial >>> Província = Pátria; Brasil = Império.
  • Não havia sentimento de pátria comum entre os habitantes da colônia. Os inconfidentes falavam em "Independência da América" ou em " Independência de Minas Gerais", não em "Independência do Brasil"; os revoltosos de Pernambuco (1817) falavam em "Independência de Pernambuco", não em "Independência do Brasil".

Senso de nacionalidade <<>> Conflitos com inimigos estrangeiros

  • A guerra contra os holandeses, no Nordeste, acirrou o sentimento de pertencimento dos pernambucanos; a Guerra do Paraguai, dos brasileiros.
      [...]. O principal fator de produção da identidade brasileira foi, a meu ver, a guerra contra o Paraguai. O Brasil lutou em aliança com a Argentina e o Uruguai, mas o peso da luta ficou com suas tropas. A guerra durou cinco anos (1865-1870), mobilizou cerca de 135 mil soldados vindos de todas as províncias, exigiu grandes sacrifícios e afetou a vida de milhares de famílias. Nenhum acontecimento político anterior tinha tido caráter tão nacional e envolvido parcelas tão grandes da população, nem a independência, nem as lutas da Regência (todas provinciais), nem as guerras contra a Argentina em 1828 e 1852 [...]. Pp. 78.  

  • Até a Guerra do Paraguai, o Brasil era um país sem heróis. A partir dela, contudo, formaram-se batalhões patrióticos, a bandeira nacional começou a ser reproduzida nos jornais e revistas, o hino nacional começou a ser executado, o Imperador D. Pedro II foi apresentado como o líder da nação.   
  • A Proclamação da República, completamente carente de participação popular, foi indiferente para a formação da idéia de nação brasileira. Na verdade, com a adoção do federalismo norte-americano, a República fortaleceu as lealdades provinciais em detrimento da lealdade nacional.
  • Após a Proclamação da República foi seguida de movimentos populares provinciais e antirrepublicanos. Citam-se: a) Canudos, na Bahia; b) Contestado, no Paraná.   
     Pode-se concluir, então, que até 1930 não havia povo organizado politicamente nem sentimento nacional consolidado. A participação política nacional, inclusive nos grandes acontecimentos, era limitada a pequenos grupos. A grande maioria do povo tinha com o governo uma relação de distância, de suspeita, quando não de aberto antagonismo. Quando o povo agia politicamente, em geral o fazia como reação ao que considerava arbítrio das autoridades. Era uma cidadania em negativo, se se pode dizer assim. O povo não tinha lugar no sistema político, seja no Império, seja na República. O Brasil era ainda para ele uma realidade abstrata. Aos grandes acontecimentos políticos nacionais, ele assistia, não como bestializado, mas como curioso, desconfiado, temeroso, talvez um tanto divertido. Pp. 83.  
 
 

 OS DIREITOS SOCIAIS NA DIANTEIRA, Pp. 110/125 
  • O avanço dos direitos políticos após 1930 foi limitdo e sujeito a sérios recuos. O mesmo não ocorreu com os direitos sociais, que foram enormemente ampliados.
  • 1930 a 1945 >>> Grande momento da legislação social no Brasil. Entretanto, como foi introduzida em um ambiente de baixa ou nula participação popular, além de precária vigência dos direitos civis, não constituiu uma "conquista" de cidadãos, mas antes um "presente" do Estado.
  • Foco na legislação trabalhista, previdenciária e sindical.
  •  
  • Observação >>>
(a) Positivistas brasileiros, seguidores fiéis e Augusto Comte, propunham, desde a Primeira República, a adoção de normas de proteção ao trabalho e ao trabalhador. Entendiam que o Estado, em prol do interesse da sociedade, deveria propiciar a cooperação entre empregador e trabalhador, reduzindo ou eliminando os potenciais conflitos.
(b) Idéias positivistas foram incorporadas na Constituição do Rio Grande do Sul. Note-se que Getúlio Vargas e seu Ministro do Trabalho, Lindolfo Collor, eram gaúchos, o que explica, em parte, a ênfase que passou a ser dada na questão social.
 
  • Inovações na legislação trabalhsita >>> 
(a) 1931. Criação do Departamento Nacional do Trabalho.
(b) 1932. Jornada de trabalho de 08 horas no comércio e na indústria. Regulamentação do trabalho feminino, proibindo o trabalho noturno de mulheres e estabelecendo salário igual para homens e mulheres. Regulamentação do trabalho dos menores de idade. Criação da CTPS. Criação das Comissões e Juntas de Conciliação e Julgamento para dirimirem os conflitos trabalhistas.  
(c) 1933/1934. Regulamentação do direito de férias para os comerciários, bancários e industriários.
(d) 1934. Constituição Federal. Consagrou a competência do governo para regular as relações de trabalho, confirmou a jornada de trabalho de 08 horas e determinou a criação do salário mínimo. Criação da Justiça do Trabalho.  
(d) 1940. Adoção do Salário Mínimo. Imposto sindical.
(e) 1941. A Justiça do Trabalho entra em pleno funcionamento. 
(f) 1943. Consolidação das Leis do Trabalho. A CLT impactou prolongada e profundamente nas relações entre patrões, empregados e Estado. Influenciada pela Carta del Lavoro, lei sindical corporativa do fascismo italiano. 
 
  • Inovações na legislação previdenciária >>>
(a) 1933. Criação do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos (IAPM), o que deu início a um processo de transformação e ampliação das Caixas de Aposentadoria e Pensão da década de 20. Os IAPs não eram baseados em empresas, mas em categorias profissionais amplas. Além disso, a administração dos IAPs não ficava a cargo de patrões e empregados. O Governo era parte do sistema. Parte financiadora e dirigente do sistema.
(b) 1933 a 1940. Ampliação progressiva da rede de beneficiados pelo sistema previdenciário: bancários, industriários, comerciários, empregados dos transportes e cargas, empregados da estiva, servidores do Estado. 
 
       [...] em cinco anos a previdência social foi estendida a quase todos os trabalhadores urbanos. Foi rapidamente atendida uma velha reivindicação dos trabalhadores. Pp. 114.  
 
  • Os IAPs recebiam recursos do governo, dos empregados e dos patões. Os benefícios concedidos variavam de acordo com o IAP. Todos concediam aposentadoria por invalidez e pensão para dependentes. Os mais ricos forneciam aposentadoria por tempo de trabalho, auxílio médico-hospitalar, auxílio-doença, auxílio-morte, auxílio-parto.
  • IAPI. Contratação de empregados por concurso público. Tornou-se famoso pelos técnicos competentes que formou, os quais tornaram-se influentes na política previdenciária.
  • Excluídos do sistema previdenciário então criado >>> Domésticos (na maioria, domésticas), autônomos e trabalhadores rurais. Os domésticos, provavelmente porque o Governo Vargas não queria atingir a classe média urbana. Os rurais, porque o poder das oligarquias agrárias permaneceu forte por muitos anos após o Estado Novo, de modo que o governo não ousava levar as normas de proteção aos trabalhadores.
 
 
Política de previdência social  << >> Privilégio, e não um direito.
 
 
Do modo como foram introduzidos, os benefícios atendiam aqueles a quem o governo decidia favorecer, de modo particular, aqueles que se enquadravam na estrutura sindical corporativa montada pelo Estado. Por essa razão, a política social foi bem caracterizada por Wanderley G. dos Santos como "cidadania regulada", isto é, uma cidadania limitada por restrições políticas. Pp. 115.
 
  • Cerne da estratégia do governo Vargas >>> Controle dos Sindicatos. As relações entre capital e trabalho deveriam ser harmônicas e cabia ao Estado atuar como árbitro, como mediador dessas relações. A organização sindical deveria ser instrumento de harmonia, não de conflito.
(a) Sindicatos deixaram de ser uma instituição de direito privado e passaram a ter personalidade jurídica de direito público.
(b) Os sindicatos deixavam de ser um órgão de representação dos interesses dos operários para serem "órgãos consultivos e técnicos" do governo.  
(c) Unicidade sindical substituiu a pluralidade sindical. 
(d) O governo mantinha delegados dentro dos sindicatos. Vigilância. 
(e) O governo oferecia vantagens aos empregados que se sindicalizassem. 
(f) Dilema dos operários >>> Liberdade sem proteção ou proteção sem liberdade. 
 
     [...] Mas a interferência do Estado era uma faca de dois gumes. Se protegia com a legislação trabalhista, constrangia com a legislação sindical. Ao proteger, interferia na liberdade das organizações operárias, colocava-as na dependência do Ministério do Trabalho. Se os operários eram fracos para se defender dos patrões, eles também o eram para se defender do Estado. Pp. 118. 
 
  • Os sindicatos eram base de uma pirâmide em cujo topo estava o governo federal. 05 Sindicatos formavam uma Federação; 03 Federações, uma Confederação. Federações e Confederações apresentavam listas para a indicação de Juízes Classistas dos TRTs e do TST.  
  • Os trabalhadores foram incorporados à sociedade por virtude das leis sociais e não de sua ação sindical e política independente. Inversão da ordem do surgimento dos direitos humanos. Os direitos sociais surgiram antes dos direitos políticos.  
  • Imposto sindical >>> Desconto compulsório, em folha, do salário de 01 dia do pagamento do empregado. Com o imposto sindical, todos os sindicatos passaram a dispor de recursos para manter a sua burocracia. Dinheiro fácil. Esse imposto ainda está em vigor!
  • Peleguismo >>> Os pelegos eram aliados do governo e dos empregadores, de quem também recebiam favores. Negligenciavam os interesses dos empregados, em benefício dos próprios interesses. Avessos a conflitos, eram figuras normalmente detestadas pelos sindicalistas mais aguerridos.   
  • Mudança de tratamento oficial em relação ao imigrante estrangeiro >>> Se desde a abolição da escravatura até a Primeira Guerra Mundial esse imigrante era necessário, bem-vindo e subsidiado, após a Guerra passou a ser visto como agitador, corruptor do operariado nacional. A lei de sindicalização de 1931 determinou que as empresas contratassem pelo menos 2/3 de empregados nacionais.
 
 
DIREITOS SOCIAIS SOB AMEAÇA. Pp. 206/208110/125
  • CF/1988. Ampliação dos direitos sociais. Aposentadoria de empregados rurais paga conforme o piso do salário mínimo. Renda mensal vitalícia para idosos e deficientes.
  • Desde então, tem se verificado lenta melhora nos indicadores de qualidade de vida: redução do analfabetismo, redução da mortalidade infantil, aumento da esperança de vida.
  • Problemas >>> Analfabetismo funcional; sistema previdenciário deficitário; persistência das grandes desigualdade sociais que caracterizam o país desde a Independência (especialmente desigualdades raciais e desigualdades regionais). 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Resenha: Os Colapsos Maias, de Jared Diamond

Centro Universitário de Brasília – UniCEUB
Pós Graduação Lato Sensu em Direito Urbanístico e Regulação Ambiental
Professora: Fernanda Cornils
Aluna: Juliana Capra Maia
Resenha:
DIAMOND, Jared. “Os colapsos maias”, in Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. 5ª Edição, Editora Record, Rio de Janeiro, São Paulo: 2007, pp. 139/158.


  
Jared Diamond, biólogo, fisiologista e biogeógrafo, autor de “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso [1]” é um respeitado professor do Departamento de Geografia da Universidade da Califórnia (UCLA) dedicado a investigações em História Ambiental.
No livro “Colapso”, Diamond examina um curioso e diversificado rol de civilizações antigas com o objetivo de identificar os motivos que as levaram a perecer ou a sobreviver. Trata, entre outras sociedades (perifericamente mencionadas em cada um dos capítulos), dos povos que habitavam a Ilha de Páscoa, dos povos que habitavam as Ilhas de Pitcairn e Henderson, dos Anasazis, dos Vikings e dos Maias. Argumenta, sinteticamente, serem 05 (cinco) os principais fatores que teriam contribuído para o seu colapso ou para a sua perpetuação, citem-se:
a) Dano ambiental. A relevância dos danos ambientais de origem antrópica para o declínio das sociedades parece estar diretamente relacionada à capacidade de resiliência dos ecossistemas afetados e à extensão dos danos efetivamente provocados pela ação humana.
b) Mudanças climáticas. Alterações das características esperadas para cada uma das estações do ano, derivadas de fenômenos de alcance global (grandes terremotos, degelos, erupções vulcânicas, tempestades solares, entre outras). Essas alterações exerciam fortíssima influência (para o bem ou para o mal) nas sociedades do passado, ainda mais fortemente dependentes que as atuais dos ciclos anuais de morte e renascimento (inverno/primavera).
c) Vizinhança hostil, ou seja, conquista de uma civilização por outra, superior em armas, alimentos, tecnologia ou em número. De acordo com Diamond, deve-se avaliar esse fator com cautela. De fato, antes de uma sociedade vir a sucumbir perante seus vizinhos, podem ter ocorrido e perdurado diversas outras circunstâncias favoráveis ao seu enfraquecimento e, em conseqüência, à sua ruína. 
d) Parceiros comerciais amistosos.Basicamente, parcerias comerciais baseadas na troca de produtos essenciais a cada uma das sociedades. Daí, se um dos parceiros por qualquer motivo enfraquecer, arriscará a sobrevivência do outro.
e) Respostas da sociedade aos seus problemas.Depende das instituições políticas, econômicas e sociais, bem como dos valores de cada sociedade envolvida.

Esses mesmos fatores seriam úteis para compreender tragédias contemporâneas, tais como o genocídio em Ruanda, as degradações ambientais na Austrália, bem como as raízes das gritantes diferenças entre a República Dominicana e o Haiti, dois Estados muito diferentes construídos sobre condições ambientais bastante similares.
De acordo com Diamond, os “colapsos maias [2]” exemplificariam 04 (quatro) desses 05 (cinco) fatores, quais sejam: danos ambientais, mudanças climáticas, hostilidades entre os próprios maias e incapacidade dos reis ou nobres agirem em prol da resolução dos problemas sociais e ambientais detectados. Explica-se.
As ruínas das cidades maias abandonadas, ruínas oficialmente descobertas em 1839 por John Stephens e Frederick Catherwood, atestam que a Península de Yucatán/México foi o berço de sociedades urbanas especiais, as quais partilhavam de uma das culturas nativas pré-colombianas mais avançadas do Novo Mundo.
Abundam registros nativos e europeus acerca dessa cultura nativa pré-colombiana tão especial. A uma, porque ainda existem povos descendentes dos antigos maias, falando línguas utilizadas por seus ancestrais. A duas, porque os sítios arqueológicos da Península de Yucatán dispõem de inscrições em vasos, paredes e monumentos. A arte e a arquitetura maia sobreviveram nesses locais completamente desabitados (“sítios arqueológicos puros”, conforme Diamond). A três, porque os espanhóis observaram os Maias por praticamente 02 (dois) séculos — desde o início das guerras de conquista (1527) até a queda do último principado maia (1697) —, circunstância que possibilitou o contato e o registro escrito de diversos aspectos de sua cultura [3].
Tais registros, combinados com análises acerca dos aspectos físico-ambientais da Península de Yucatán,fornecem consistentes hipóteses acerca dos motivos que ensejaram o enfraquecimento e, finalmente, o desaparecimento da sociedade maia.  



Generalidades acerca do modo de vida maia 
Conforme assinala Jared Diamond, diversamente do que consta do imaginário popular, as terras habitadas pelos antigos maias não estão situadas em uma zona equatorial permanentemente úmida, abundante em terras férteis. Em verdade, essas terras estão a mais de 1600 quilômetros da Linha do Equador, em um habitat conhecido como "floresta tropical estacional".
A região é dividida em duas estações anuais: uma estação seca; uma estação chuvosa. Dessa forma, pode ser compreendida como uma floresta tropical sazonal ou como um deserto sazonal.
As estações das águas e das secas são mais ou menos imprevisíveis. De acordo com o autor, ainda hoje — quando dispomos de sofisticados mecanismos de previsão meteorológica —é comum acontecer de os agricultores locais plantarem esperando chuvas que acabam não vindo.
Ao norte do território maia as chuvas são mais escassas que ao sul. Não obstante, os maias do sul úmido sofriam mais com a carestia de água que os do norte seco. É que o lençol freático é mais raso ao norte e mais profundo ao sul da Península de Yucatán. Ademais, o solo típico da região (Karst) é um terreno calcário poroso assemelhado a uma esponja e pelo qual a água infiltra rapidamente. Noutras palavras, a retenção de água nas camadas superficiais do solo (mais acessíveis ao homem) da região sul da Península de Yucatán é dificultada pelo tipo de solo, extremamente poroso.
Engenharia foi a solução encontrada pelos maias para mitigar o problema da escassez de recursos hídricos. Os maias não edificavam as cidades nas proximidades dos rios, mas nas terras altas. Para isso, construíam reservatórios artificiais, engessando o fundo de depressões no relevo (depressões naturais ou escavadas). A cidade maia de Tikal, por exemplo, possuía um reservatório grande o suficiente para abastecer 10 (dez) mil pessoas por 18 (dezoito) meses.
Secas mais severas, entretanto, provocavam carestia generalizada, até porque a sociedade maia era fortemente dependente da cultura do milho (que correspondia a 70% da dieta da população) e do feijão [4]
A suscetibilidade da sociedade maia à fome provocada pelas secas era agravada pelas circunstâncias de não ser possível armazenar alimentos por longos períodos, dado que a umidade local os punha a perder. Também era agravada pelo rudimentar sistema de transportes, totalmente dependente da tração humana [5].
A estratificação social maia está intrinsecamente relacionada à sua produção agrícola. O rei era o sumo sacerdote da sociedade maia, com a função de ministrar rituais astronômicos e de calendário, propiciando ao seu povo a chuva e a prosperidade. Por outro lado, os camponeses aceitavam sustentar o estilo de vida luxuoso do rei e de sua corte, desde que o alegado parentesco do monarca com os deuses lhes garantisse chuva e prosperidade. De se concluir que, em tempos de seca e, portanto, de carestia, a sociedade maia passava por graves turbulências políticas [6].
Aliás, vale dizer que turbulências políticas não eram raras na sociedade maia já que, ao contrário do comumente difundido, os maias não eram povos pacíficos. Suas guerras eram, de fato, “intensas, crônicas e insolúveis” [7]. Escavações arqueológicas evidenciaram grandes fortificações cercando diversos sítios maias. Ademais, há descrições claras de guerras e prisioneiros em monumentos de pedra, em vasos, e em murais. Finalmente, a decifração da escrita maia revelou que boa parte dos textos constitui-se de inscrições de reis gabando-se de suas conquistas militares.
 
 
 
Os maias e as secas 
Dada a fragilidade da sociedade maia diante das secas, Diamond lhes atribuiu relevante papel nos colapsos maias, papel, aliás, que chega às raias do determinismo.
Estudos relativos ao macroclima da Península de Yucatán apontaram a ocorrência de 07 (sete) grandes ciclos climáticos mais úmidos ou mais secos, diretamente correspondentes à ascensão e aos colapsos dos maias.Esses ciclos envolvem grandes períodos desde 5500 a.C (úmido) até 760 d.C (início da pior seca dos últimos 7 mil anos e associada ao colapso maia clássico). Esquematicamente:
  • 5500 a.C. até 500 a.C. >>> Área maia úmida.
  • 475 a 250 a.C. >>> Período pouco anterior à ascensão da civilização maia pré-clássica. Seco.
  • 250 a.C. até 125 d.C. >>> A ascensão do pré-clássico.
  • 125 d.C. até 250 d.C. >>> Seca. Associada ao colapso pré-clássico em El Mirador e outras regiões.
  • 250 d.C. a 600 d.C. >>> Novas condições úmidas. Construção das cidades clássicas.
  • 600 d.C. >>> Seca. Declínio em Tikal e outras regiões.
  • 760 d.C., aproximadamente >>> Começou a pior seca dos últimos sete mil anos, que atingiu seu auge por volta do ano 800 d.C., e que supostamente está associada ao colapso clássico.
 
Ao longo do colapso maia clássico, isto é, entre 760 d.C e 909 d.C, as terras maias do sul, mais sensíveis às secas, perderam mais de 99% (noventa e nove por cento) de sua população, situação que teria implicado altas taxas de mortalidade e baixas taxas de natalidade, visto que não existem quaisquer indícios de realocação das populações atingidas pela seca.
Ao longo desse período, igualmente, há uma redução progressiva do número de monumentos, prédios, inscrições e objetos de cerâmica (indicadores de sociedades complexas), o que, no entendimento do autor, o autorizaria a falar em “colapso” da sociedade maia.
 
 
 
Conclusões do autor 
Os colapsos maias demonstrariam que tragédias também podem recair sobre sociedades avançadas e criativas, não se restringindo, portanto, às pequenas, ágrafas e isoladas sociedades simples que habitavam a Ilha de Páscoa, as Ilhas de Pitcairn e Henderson e aos Anasazis.
Demonstrariam, ainda, que sociedades que vivem em ecossistemas mais ou menos estáveis [8] também podem colapsar, desde que os fatores propícios ao colapso se apresentem. No caso dos maias as condições adequadas ao colapso se caracterizaram pelo seguinte:
a) Dano ambiental: Os maias danificaram o seu ambiente, especialmente por meio de desmatamento e da erosão de encostas. As práticas agrícolas voltadas ao abastecimento de uma enorme população (muito superior aos recursos ambientais disponíveis) consistiram na causa principal da degradação do meio ambiente local. Por causa da erosão, em tempos de absoluta necessidade, houve diminuição de terras cultiváveis.
b) Mudanças climáticas:As secas, provavelmente repetidas vezes, foram fundamentais para o colapso maia, quer obstando a união política das cidades sob um único império, quer provocando verdadeiras catástrofes aos agricultores de regiões maias específicas. Ademais, a seca à época do colapso clássico não foi a primeira, mas a mais intensa seca que os maias atravessaram.
c) Vizinhança hostil. As hostilidades entre os próprios maias tiveram um papel importante. Em tempos de carestia, cada vez mais gente lutava por recursos sempre mais escassos. A hostilidade entre cidades vizinhas diminuiu, também, as terras disponíveis para a agricultura, criando insegurança nos arredores dos principados (onde não era seguro cultivar).
d) Respostas da sociedade aos seus problemas.Omissão dos líderes. A atenção dos reis e dos nobres maias estava direcionada para o enriquecimento em curto prazo, para as guerras, para a construção de monumentos e para a competição mútua. Assim como muitos líderes ao longo da história, os reis e os nobres maias não prestavam atenção aos problemas de longo prazo, mesmo que os percebessem.
 
A comparação entre os maias e as sociedades ocidentais contemporâneas (especialmente a sociedade norte-americana) aparece, no texto, de forma bastante evidente.
O autor fala aos ocidentais modernos quando se preocupa em ilustrar o colapso de uma sociedade avançada e criativa esclarecendo, portanto, que a tecnologia não pode ser tomada como tábua de salvação para os limites ambientais do crescimento.
O autor fala aos ocidentais modernos quando afirma que os colapsos atingem, inclusive, os povos habitantes de áreas ambientalmente estáveis. Dessa forma, todos —não apenas os japoneses e os islandeses —devem se preocupar com a contribuição de seus modos de vida para o colapso de sua sociedade.
Finalmente, o autor fala aos ocidentais modernos quando ressalta o papel, determinante para o colapso, da omissão das elites maias, leia-se:
 
 
Assim como os chefes da ilha de Páscoa, erguendo estátuas cada vez maiores, finalmente coroadas com um pukao, e assim como a elite anasazi, que usava colares com duas mil gemas de turquesa, os reis maias procuraram superar uns aos outros construindo templos cada vez mais impressionantes, cobertos com camadas de gesso cada vez mais grossas - o que por sua vez nos faz lembrar do extravagante e conspícuo consumo dos modernos presidentes de empresa norte-americanos. A passividade dos chefes de Páscoa e reis maias diante das grandes ameaças que rondavam suas sociedades completa a nossa lista de preocupantes comparações. P. 158.

 




[1] Originalmente editado em inglês, sob o título “Colapse: How Societies Choose to Fail or Succeed”.
 
[2] Cabe a ressalva, constante do próprio texto, de que não há consenso entre historiadores e arqueólogos acerca da ocorrência de um colapso da sociedade Maia, até porque um enorme contingente populacional foi encontrado pelos espanhóis quando da conquista da América no século XVI. Ademais, há quem entenda que os tais “colapsos” seriam apenas o declínio de uma cidade e a ascensão de outras. Diamond entende que houve, sim, o colapso (na verdade, os colapsos) da sociedade Maia, sobretudo quando se observa o desaparecimento de cerca de 90% a 99% da sua população após 800 d.C. Ao longo do texto, descreve as demais razões de seu convencimento.
 
[3] Diamond refere-se, especialmente, ao Bispo Diego de Landa. Viveu na Península de Yucatán entre 1549 e 1578. Mandou queimar todos os manuscritos maias que pôde encontrar (só restam 04 nos dias atuais). Descreveu detalhadamente (e por escrito) a sociedade maia e obteve, com um informante,“dicas” para a decifração dos escritos maias.
 
[4] A pecuária maia era bastante restrita em número de animais e em fornecimento de proteína. Os maias dispunham apenas de perus, de cachorros, de patos e de abelhas sem ferrão (produção de mel). Proteína animal também era obtida, minoritariamente, por meio da caça de veados (alimento restrito à nobreza), pela pesca ou pela criação de peixes e de tartarugas.

[5] De acordo com Diamond, os maias não dispunham de animais de carga e não utilizavam a roda para transportar produtos. Também não dispunham de roldanas ou de barcos a vela. Os transportes eram realizados exclusivamente por meio de tração humana. Essa circunstância impunha severos limites às campanhas militares e acabou por perpetuar os conflitos políticos entre as cidades maias, in verbis:

 

Tais considerações sobre estoque de comida podem contribuir para explicar por que as sociedades maias continuaram politicamente divididas em pequenos reinos perpetuamente em guerra uns com os outros, e que nunca se unificariam em grandes impérios como o dos astecas do vale do México (alimentados com a ajuda de sua agricultura de chiampa e outras formas de intensificação) ou o Império Inca, nos Andes (alimentado por culturas mais diversificadas, carregadas por lhamas através de estradas bem construídas). Pp. 148.

 
[6] Elucidativo é o caso da cidade de Copán, em que os maias incendiaram o palácio e mataram o rei diante das longas secas características do colapso clássico (após 800 d.C).

[7] Crônicas dada a limitação de recursos naturais. Insolúveis porque as limitações de transporte e de fornecimento de alimentos impossibilitavam que qualquer principado dominasse os demais, unificando-os em um único império.
 
[8] Apesar das grandes secas sazonais, a Península de Yucatán era (como ainda é) ambientalmente mais estável que a Groenlândia ou a Islândia. Tal circunstância, contudo, não impediu o colapso da sociedade maia. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Esquema de Leitura: "Os colapsos Maias", Jared Diamond

Centro Universitário de Brasília – UniCEUB
Pós Graduação Lato Sensu em Direito Urbanístico e Regulação Ambiental
Professora: Fernanda Cornils
Aluna: Juliana Capra Maia
Esquema de Leitura
Texto-base: DIAMOND, Jared. “Os colapsos maias”, in Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. 5ª Edição, Editora Record, Rio de Janeiro, São Paulo: 2007.



Considerações Preliminares
 
-- De acordo com Diamond, ainda não há consenso entre os arqueólogos acerca da ocorrência de um colapso da sociedade Maia, porque:


a) Elementos diferentes variam em diferentes localidades da região ocupada pelos maias.
b) Apenas alguns sítios maias foram estudados detalhadamente.
c) Continua a ser uma incógnita a razão de a maior parte da terra maia ter continuado quase despovoada e não ter conseguido se recuperar após o colapso e a reconstituição das florestas.

-- Jared Diamond entende que houve, sim, um colapso (na verdade, alguns colapsos) da sociedade Maia. No capítulo ora resumido, descreve as razões do seu convencimento. 


      “Alguns arqueólogos se concentram nesses cinco tipos de complicações e não querem reconhecer um colapso maia clássico. Mas tal atitude deixa de lado fatos óbvios que clamam por explicação: o desaparecimento de cerca de 90 a 99% da população maia após 800 d.C., especialmente na região outrora mais densamente povoada das terras baixas do sul, e o desaparecimento de reis, calendários de conta longa e outras complexas instituições políticas e culturais. Por isso, falamos de um colapso maia clássico, um colapso tanto de população quanto de cultura, que pede explicação”. P. 153.

 
 
 
Achados Arqueológicos

-- Península de Yucatán, México >>> Berço da cultura maia, uma das culturas nativas mais avançadas do Novo Mundo antes da chegada dos europeus e a única com textos escritos decifrados.
 
-- Sociedades urbanas. As cidades maias, altamente sofisticadas em arquitetura e artes, hoje, encontram-se completamente despovoadas, ocultas por árvores no meio da floresta tropical.
 
-- As ruínas das cidades maias foram descobertas em 1839 por John Stephens (advogado norte americano) e Frederick Catherwood (projetista inglês).
 

            Algumas citações dos escritos de Stephens nos dão uma idéia do romântico apelo dos maias: "A cidade estava desolada. Ao redor das ruínas não havia remanescente da raça que ali viveu, portador de tradições passadas de pai para filho e de geração a geração. Estendia-se diante de nós como um barco despedaçado em meio ao oceano, sem mastros, o nome apagado, a tripulação morta e ninguém para dizer de onde veio, a quem pertencia, há quanto tempo viajava, ou o que provocou a sua destruição (...) Arquitetura, escultura e pintura, todas as artes que embelezam a vida, floresceram nesta densa floresta; oradores, guerreiros e estadistas, beleza, ambição e glória viveram e morreram, e ninguém soube que tais coisas existiram, ou podia falar de sua existência passada (...). Ali estavam os restos de um povo culto, educado e peculiar, que passou por todos os estados inerentes à ascensão e queda das nações; atingiu a sua era dourada, e pereceu (...) Subimos a seus templos desolados e a seus altares tombados; e para onde quer que nos voltássemos tínhamos provas de seu bom gosto, sua habilidade para as artes (...) Trouxemos de volta à vida aquela estranha gente que nos olhava com tristeza da parede; os imaginamos em belos trajes e adornados com plumas, subindo os terraços do palácio e os degraus que levavam aos templos (...) No romance da história do mundo, nada me impressionou mais do que o espetáculo desta outrora grande e encantadora cidade, derrubada, desolada e perdida (...) cercada por quilômetros de árvores, e sem nem mesmo um nome para distingui-Ia." Atualmente, os turistas atraídos às ruínas maias ainda sentem estas mesmas sensações. E por esse mesmo motivo achamos o colapso maia tão fascinante. Pp. 141.



Justificativas para estudar os colapsos maias
 
-- Os colapsos maias são mais fáceis de estudar do que aqueles que ocorreram com sociedades ágrafas da Antiguidade (tais como os anasazis e os pascoais), já que:
a) Abundam registros nativos acerca da sociedade maia >>> Inscrições em vasos, paredes e monumentos, entre outras.
b) Abundam registros europeus acerca da sociedade maia >>>  
  • O primeiro contato entre europeus e os maias ocorreu em 1502 (apenas 10 anos após a chegada de Cristóvão Colombo na América). 
  • Os espanhóis observaram os maias por praticamente 02 (dois séculos), desde o início das guerras de conquista, em 1527, até a queda do último principado maia, em 1697.    
  • Bispo Diego de Landa. Viveu na Península de Yucatán entre 1549 e 1578. Mandou queimar todos os manuscritos maias que pôde encontrar (só restam 04 nos dias atuais). Descreveu, por escrito, detalhada descrição da sociedade maia e obteve, com um informante,“dicas” para a decifração dos escritos maias.

c) Arte e arquitetura sobreviveram em "sítios puros", completamente desabitados. 
d) Ainda existem povos descendentes dos antigos Maias, falando línguas utilizadas pelos Maias

-- As tragédias ocorridas com os maias demonstram que os colapsos também podem recair sobre sociedades avançadas e criativas >>> Diversamente das sociedades tratadas nos outros capítulos do livro (pequenas, ágrafas, isoladas e desprovidas de tecnologia), a sociedade maia era uma das mais avançadas do Novo Mundo Pré-Colombiano. Ademais, não viviam em um ambiente propriamente frágil.
 
 
-- Os colapsos maias ilustram quatro dos cinco pontos utilizados pelo Autor para a compreensão dos colapsos sociais >>>
a) Os maias danificaram o seu ambiente, especialmente por meio de desmatamento e da erosão. As práticas agrícolas voltadas ao abastecimento de uma enorme população consistiram na causa principal da degradação do meio ambiente local. 
 
b) Mudanças climáticas (secas) contribuíram para o colapso maia, provavelmente repetidas vezes. 
 
c) As hostilidades entre os próprios maias tiveram um papel importante. 
 
d) A competição entre reis e nobres levou a uma ênfase crônica na guerra e na construção de monumentos ao invés do foco na solução dos problemas fundamentais. 
 
e) Comércio ou extinção de comércio com sociedades externas amistosas >>> Fator que não parece ter sido crucial para os maias e, portanto, não tem relação direta com o seu declínio. "Embora a obsidiana (sua matéria-prima preferida para fazer ferramentas), jade, ouro e conchas fossem importados, os últimos três itens eram luxos não essenciais. As ferramentas de obsidiana continuaram largamente difundidas na região maia muito depois do colapso político, portanto é evidente que a obsidiana nunca faltou" (pp. 142).

 
O modo de vida maia e seus danos ambientais

-- Caracterísiticas físicas gerais da Península de Yucatán >>>
  • As terras dos antigos maias não estão situadas em uma zona equatorial permanentemente úmida. Em verdade, distam mais de 1600 km do Equador, em um habitat conhecido como "floresta tropical estacional".
  •  
  • Divisão do ano em duas estações: seca e chuvosa.
  •  
  • Deserto sazonal ou floresta tropical sazonal.
  •  
  • Estações das águas e das secas >>> Imprevisíveis. Ainda hoje é comum os agricultores plantarem esperando chuvas que acabam não vindo. Safras ruins ainda são resultado de secas e de furacões.
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  • Pluviometria >>> Norte seco (menos chuvas) e sul úmido (mais chuvas).
  • Recursos hídricos subterrâneos >>> O sul úmido tinha mais problemas com carestia de água que o norte seco. Explicação provável >> lençol freático mais raso ao norte e mais profundo ao sul da Península.
  • Solo >> Karst. Terreno de calcário poroso semelhante a uma esponja por onde a água infiltra rapidamente.  Noutras palavras, a retenção de água nas camadas superficiais do solo (mais acessíveis ao homem) da região sul da Península de Yucatán era dificultada pelo tipo de solo, extremamente poroso.

 
-- Solução encontrada pelos maias para o problema da escassez de recursos hídricos >>> Engenharia. Mesmo no sul da Península de Yucatán,  os maias não edificavam as cidades nas proximidades dos rios, mas nas terras altas. Para isso, construíam reservatórios artificiais, engessando o fundo de depressões no relevo (depressões naturais ou escavadas). A cidade maia de Tikal, por exemplo, possuía um reservatório grande o suficiente para abastecer 10 mil pessoas por 18 meses.

 
 
-- Generalidades acerca do modo de vida dos maias >>>  
  • Agricultura >>> Um dos mistérios ainda não desvendados acerca dos maias. A quantidade de pessoas nas cidades maias não seria suportada tão-somente pela agricultura itinerante. Portanto, os maias devem ter descoberto um mecanismo de aumentar a produção (como terraços de cultivo nas encostas para reter o solo e a umidade, sistemas de irrigação, redes de canais e campos drenados ou elevados). 
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  • Culturas mais importantes >>> Milho (70% da dieta da população) e feijão.
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  • Animais domésticos >>> Peru, cachorro, pato e abelha sem ferrão que produzia mel.
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  • Caça >>> Veado (alimento restrito à nobreza maia).
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  • Pesca, criação de peixes e de tartarugas em locais isolados.
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  • Estratificação social >>> Pelo menos 70% dos maias eram camponeses. Um camponês maia só podia suprir duas vezes a necessidade de sua família, já que: a) a base da agricultura era pouco protéica; b) os maias dispunham de poucos animais comestíveis; c) os animais comestíveis disponíveis aos maias eram de pequeno porte e, portanto, forneciam pouca carne; d) não era possível armazenar o milho por longos períodos, dado que a região tinha clima úmido; e) o transporte de alimentos (como de todo o resto) dependia exclusivamente da  tração humana, já que os maias não dispunham de animais de carga (circunstância que impunha severas limitações às campanhas militares).   
Tais considerações sobre estoque de comida podem contribuir para explicar por que as sociedades maias continuaram politicamente divididas em pequenos reinos perpetuamente em guerra uns com os outros, e que nunca se unificariam em grandes impérios como o dos astecas do vale do México (alimentados com a ajuda de sua agricultura de chinampa e outras formas de intensificação) ou o Império Inca, nos Andes (alimentado por culturas mais diversificadas, carregadas por lhamas através de estradas bem construídas). Pp. 148.
 
  • Tal como outras sociedades mesoamericanas, os maias não possuíam instrumentos de metal, roldanas, rodas (exceto localmente, como brinquedos), barcos a vela e animais domésticos grandes o bastante para carregar cargas ou puxar um arado.
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  • Toda a escrita maia antiga preservada está gravada em pedra ou em cerâmica e trata apenas de reis, nobres e suas conquistas. Plebeus não são mencionados.
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  • Quando os espanhóis chegaram, os maias ainda usavam papel feito com casca de árvore coberta de gesso para escrever livros, dos quais os únicos quatro que escaparam à fogueira do bispo Landa são tratados de astronomia e o calendário. Os antigos maias também tinham livros de casca de árvore, freqüentemente retratados em sua cerâmica, mas apenas restos deteriorados destes livros sobreviveram nas tumbas.
  • O Calendário Maia de Conta Longa começa em 11 de agosto de 3114 a. C. (antedatado pois em 3000 a.C ainda não havia escrita naquela região). Esse documento nomeia as datas em unidades de dias (kin), 20 dias (uinal), 360 dias (tun), 7.200 dias, o que equivale a aproximadamente 20 anos (katunn) e 144 mil dias ou aproximadamente 400 anos (baktun). Toda a história maia transcorre entre os baktuns 8, 9 e 10.
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  • Na sociedade maia, o rei era também o sumo sacerdote, com a responsabilidade (diante de seu parentesco com os deuses) de ministrar rituais astronômicos e de calendário, e assim trazer chuva e prosperidade. 
Havia um acordo tácito quid pro quo: os camponeses sustentavam o estilo de vida luxuoso do rei e de sua corte, alimentavam-nos com milho e carne de veado e construíam os seus palácios porque o rei lhes havia feito grandes promessas. Como veremos, os reis sempre entravam em conflito com seus camponeses no caso de seca, porque isso era equivalente à quebra de uma promessa real. P. 150.

 
 
-- Guerras >>> 

  • Ao contrário do comumente difundido, os maias não eram povos pacíficos.
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  • As escavações arqueológicas evidenciaram grandes fortificações cercando diversos sítios maias. Ademais, há descrições claras de guerras e prisioneiros em monumentos de pedra, em vasos, nos murais descobertos em 1946 em Bonampak. Finalmente, a decifração da escrita maia revelou que boa parte dos textos constitui-se de inscrições de reis jactando-se de conquistas militares.
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  • As guerras maias eram intensas, crônicas e insolúveis >>> Limitações de comida e transporte tornavam impossível para qualquer principado unificar toda a região em um único império.
  • Provavelmente bem mais freqüentes, eram as lutas entre plebeus por terras, à medida que a população aumentava e as terras cultiváveis escasseavam. Não, entretanto, há relatos de tais conflitos nas inscrições maias remanescentes.

 
 
-- Secas >>>
  • 5500 a.C. até 500 a.C. >>> Área maia úmida.
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  • 475 a 250 a.C. >>> Período pouco anterior à ascensão da civilização maia pré-clássica. Seco.
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  • 250 a.C. até 125 d.C. >>> A ascensão do pré-clássico.
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  • 125 d.C. até 250 d.C. >>> Seca. Associada ao colapso pré-clássico em El Mirador e outras regiões.
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  • 250 d.C. a 600 d.C. >>> Novas condições úmidas. Construção das cidades clássicas.
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  • 600 d.C. >>> Seca. Declínio em Tikal e outras regiões.
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  • 760 d.C., aproximadamente >>> Começou a pior seca dos últimos sete mil anos, que atingiu seu auge por volta do ano 800 d.C., e que supostamente está associada ao colapso clássico.
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  • As terras baixas do sul perderam mais de 99% de sua população no curso do colapso clássico. O despovoamento envolveu uma alta taxa de mortalidade e uma baixa taxa de natalidade (não há quaisquer indícios de que a população do sul tenha sido realocada em outras regiões mais úmidas).

 
-- Apogeu da sociedade maia clássica >>> De 250 d.C. em diante, a população maia, o número de monumentos e prédios e o número de datas de conta longa em monumentos e em objetos de cerâmica aumentou quase exponencialmente, para atingir o auge no século VIII d.C. Os maiores monumentos foram erguidos perto do fim desse período clássico. 
 

 
-- Colapso da sociedade maia clássica >>> Desde o século IX até 909 d.C, período marcado pela progressiva redução no número de monumentos, prédios, inscrições e objetos de cerâmica (indicadores de sociedades complexas). 

 
-- Caso de Copán >>> Estudos dos esqueletos dos habitantesde Copán revelaram que a saúde dos habitantes dessa cidade maia (elite e plebeus) deteriorou sensivelmente entre 650 e 850 d.C. 
  • A população de Copán cidade maia situada, atualmente, em território hondurenho, cresceu rapidamente entre o século V d.C e o século IX d.C. 
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  • A maioria dos habitantes de Copán residia em bolsões planos e férteis no fundo de um vale. Com o crescimento da população, as áreas íngremes começaram a ser ocupadas e cultivadas, situação que em pouco tempo resultou em erosão de encostas  (diretamente causada pelo desmatamento) e na consequente perda de nutrientes do solo.  
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  • Com o abandono das colinas improdutivas, toda a população de Copán (agora, maior que nunca) tinha de ser alimentada com a produção obtida nas terras situadas no fundo do vale >>> Competição e conflitos pelos 26 km2 de terras férteis.  
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  • Desmatamento das encostas >>> Provável alteração do microclima, que tende a ter ficado mais seco. A redução da umidade e da fertilidade do solo explicam a insatisfação da população de Copán com seu rei, cujo palácio foi incendiado por volta de 850 d.C. 


Por que não há consenso científico acerca dos colapsos maias?
  • Não houve apenas um único e enorme colapso maia. Houve ao menos dois colapsos menores anteriores em alguns sítios, um por volta de 150 d.C., quando El Mirador e outras cidades maias entraram em colapso (o chamado colapso pré-clássico), o outro (chamado "hiato maia") em fins do século VI e início do século VII, período durante o qual nenhum monumento foi erguido no bem estudado sítio de Tikal. Houve também alguns colapsos pós-clássicos nas áreas cujas populações sobreviveram ao colapso clássico ou aumentaram depois dele - como a queda de Chichen Itzá por volta de 1250 e de Mayapán, por volta de 1450.
  • O colapso clássico obviamente não foi completo, porque havia centenas de milhares de maias que encontraram e lutaram contra os espanhóis. Esses sobreviventes se concentravam em áreas com suprimento estável de água, especialmente no norte, com seus cenotes, nas áreas costeiras, com seus poços, junto a um lago do sul e ao longo de rios e lagoas em lugares mais baixos. Contudo, a população desapareceu quase completamente no que fora o coração do território maia no sul.
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  • O colapso populacional (como medido pelo número de casas e objetos de obsidiana) era em alguns casos mais lento do que o declínio em número inscrições de datas em monumentos. O que se desintegrou mais rapidamente durante o colapso do período clássico foi a instituição da monarquia e o calendário de conta longa. Ex. Copán.
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  • Colapsos aparentes de cidades nada mais eram do que ciclos de poder, ou seja, cidades individuais tornando-se mais poderosas, depois declinando ou sendo conquistadas, para em seguida se reerguerem e conquistarem os seus vizinhos, sem mudanças na população total.
 
 
Causas dos colapsos maias, segundo Diamond

-- Crescimento populacional, muito acima dos limites dos recursos disponíveis.

-- Degradação ambiental. Efeito do esmatamento e da erosão de encostas, o que causou uma diminuição na quantidade de terras cultiváveis em um tempo em que mais terras cultiváveis se faziam necessárias (dado o crescimento populacional).
 
-- Guerra e conflitos. Cada vez mais gente lutava por recursos cada vez mais escassos. A guerra diminuiu a quantidade de terra disponível para a agricultura, criando terras de ninguém entre diversos principados maias onde, exatamente em decorrência das guerras, não era seguro cultivar.
 
-- Mudanças climáticas. De acordo com Diamond, a seca à época do colapso clássico não foi a primeira que os maias atravessaram, mas foi a mais intensa. À época do colapso clássico a região estava superlotada, não havia área desocupada útil nas redondezas onde uma família pudesse recomeçar e não era possível acomodar a população que fugia das secas nas áreas que continuavam a ter fornecimento de água seguro. 

-- Omissão dos líderes. A atenção dos reis e dos nobres estava direcionada para o auto-enriquecimento a curto prazo, para as guerras, para a construção de monumentos, para a competição e para a extração de comida dos camponeses de modo a possibilitar o sustento dessas atividades. Assim como muitos líderes ao longo da história, os reis e os nobres maias não prestavam atenção aos problemas de longo prazo, mesmo que os percebessem. 

           Assim como os chefes da ilha de Páscoa, erguendo estátuas cada vez maiores, finalmente coroadas com um pukao, e assim como a elite anasazi, que usava colares com duas mil gemas de turquesa, os reis maias procuraram superar uns aos outros construindo templos cada vez mais impressionantes, cobertos com camadas de gesso cada vez mais grossas - o que por sua vez nos faz lembrar do extravagante e conspícuo consumo dos modernos presidentes de empresa norte-americanos. A passividade dos chefes de Páscoa e reis maias diante das grandes ameaças que rondavam suas sociedades completa a nossa lista de preocupantes comparações. P. 158.

Artigo publicado em periódico. De naturalista a militante: a trajetória de Rachel Carson

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